Ultra Maratón de Los Andes, como foi. (parte 2)

Leia como foi a parte 1

Partimos de 900 metros do nível do mar, e cada km levava entre 7 e 13 minutos nesse trecho, com 10km já estávamos a 1700 metros e mais de 2 horas de prova já haviam se passado num percurso muito difícil, passei pelo primeiro ponto de apoio rapidamente só tomando um gatorade. Dos 10 aos 20km desceríamos outra vez até os 900m. Havia outro ponto de hidratação por volta do km 20, demorei um pouco mais retirando alguns lanches da parte de trás da mochila e passando para frente, nesse momento os corredores de 50km, que haviam largado as 5 da manhã, se juntavam com os de 80km. A essa altura já era notório saber quem havia acabado de começar a corrida e quem já estava a mais de 3 horas alternando escalaminhada com corrida, mas nesse momento dois brasileiros me cumprimentaram, uma moça que seguiu adiante e um rapaz chamado Pepe, de Curitiba, que puxou conversa e fez com que eu desse uma reanimada. Ficamos por algum tempo juntos, mas não agüentei o ritmo e fiquei para trás. Já me preocupava um pouco porque o percurso havia sido muito difícil no início, me sentia cansado, sabia que faltava muito e imaginava se seria assim o tempo todo, mas não havia o que fazer a não ser seguir em frente.

Passei por vários momentos de altos e baixos durante a corrida, um dos mais longos foi durante a noite, já era quase 6 da manhã e nem sinal de que o sol estava por acordar. Sabia que estava num lugar de paisagem esplendorosa e não conseguia ver nada além do foco de luz da minha lanterna e de vez em quando as luzes da cidade de Santiago lá embaixo, que realmente era muito bonito, mas não valia o esforço mental e físico de correr por horas na escuridão só para essa vista. Quase 7 da manhã, o dia começa a clarear, estava no km 28 com 5 horas de prova, era assustador pensar que faltavam 52km, por isso tentava esquecer, apreciar a paisagem, tirar fotos, caminhar e correr quando possível. Pela altimetria íamos subir do km 20 ao 50, chegando a 2400 metros de altura.

No posto do km 33 peguei minha sacola, recarreguei a mochila com os lanches, troquei os óculos transparentes por um de sol, deixei as luvas e corta vento, comi umas amêndoas e biscoitos doces que a organização oferecia, fiquei uns 5 minutos, fazendo tudo sem pressa, quando voltei à prova me sentia melhor, por isso resolvi que em todos os postos de hidratação ia ficar um tempo relaxando para ver até em qual deles essa estratégia ia funcionar. Continuava com uma camiseta e a primeira pele, pois o sol ainda não esquentava.

Por mais que o tempo passasse rápido, os quilômetros não, a subida era interminável e impossível de correr, pela altimetria íamos subir do km 20 ao 50, chegando a 2400 metros. Quanto mais alto, mais bonita era a paisagem, ainda se via neve em várias montanhas, e a vista alcançava tão longe que as fotos não conseguiam retratar a imensidão. Estava num dos lugares mais bonitos e mais difíceis que já havia chegado em uma corrida e sabia que poucas pessoas haviam visto e vivenciado os Andes daquele ponto de vista. Isso tornava a experiência mais especial, mas a corrida não acabava ali, e para completar esse desafio ainda me faltava muito, estava no km 52 com mais de 9 horas de prova, ou seja, era mais de 11 da manhã, eu havia começado a correr as 2, e faltava 28km. Supostamente tudo em descida para retornar aos 900m que começamos, mas sempre aparecia uma subida íngrime no caminho, nesse nível de cansaço as descidas detonavam os joelhos porque os músculos já não seguravam muita coisa, tinha o meu bastão de trekking que me ajudou muito, mas como disse, nesse nível de esgotamento qualquer lombada vira montanha.

Cheguei ao km 60 com a certeza de que ia completar o desafio, ainda podia apreciar muito a paisagem e isso me dava ânimo, quando estava perto do km 64 me perdi, quando me dei conta já não via as fitas que demarcavam o caminho e estava numa propriedade particular, saí da trilha para ver se encontrava outra estrada, mas nenhuma delas tinha as fitas, por isso resolvi voltar todo o caminho até a última fita que havia visto, isso me tomou uns 20 minutos, mas o pior foi que também levou minha vontade de continuar, talvez porque quando estava no caminho certo corria com outras 6 pessoas e agora estava só, nesse ponto da prova não era só a natureza que se escutava, também haviam máquinas e motos, já não estava mais num local de difícil acesso, parecia que estava numa estrada de terra comum perto de um sítio, o sol estava quente e eu cansado, muito cansado. Caminhava lentamente com vontade de que a corrida terminasse ali mesmo. Numa das muitas subidas que ainda encontrava pelo caminho, resolvi parar debaixo de uma árvore que fazia sombra, comi 2 lanches de uma vez e tomei o último gole de isotônico que restara, enquanto isso um outro corredor sentou-se, também exausto e quando um terceiro se aproximou, voltamos a caminhar, só queríamos chegar ao último ponto de apoio no km 74. Aquele que se animava um pouco tentava correr e puxar os outros, mas nossa corrida a essa altura era uma piada, o que corria praticamente não se afastava dos que andavam, levei incríveis 2 horas para fazer 7 km, até que finalmente chegamos ao ponto de apoio do km 74, e lá estava o outro grupo de 4 corredores, aqueles que me acompanhavam antes que me perdesse, uns estavam deitados, outros comendo e nenhum de nós parecia ter pressa, sabíamos que íamos chegar seja lá quando fosse, comi quase tudo o que tinha a disposição, frutas secas, amêndoas, amendoim salgado, bolacha doce, chocolate, banana, água e isotônico, parecia um saco sem fundo e dalí partimos, os 7 muito próximos uns dos outros, a vontade de chegar superava a dor que todos sentíamos, e fizemos esses 6 últimos quilômetros correndo como corredores de verdade outra vez, a terra estava muito solta nesse trecho, via pessoas caindo, inclusive eu, mas o que era ralar o antebraço depois de correr 76km? Isso mesmo, nada! Era só levantar e continuar correndo para chegar “logo”.  Era tanta euforia que consegui me perder outra vez, mas agora só por uns 100 metros, rapidamente voltei à trilha, quando cheguei ao asfalto sabia que faltava menos de 1km, e mesmo assim ainda tinha subida, dá pra acreditar??? Enfim, a mente fez com que eu corresse realmente forte outra vez, havia poucas pessoas na rua, mas as que estavam lá me cumprimentavam como se eu fosse o primeiro colocado, acenei para a Paula, ela e a Laura começaram a pular e gritar, fiz o último retorno e cruzei a marca de 80km em 14h45min.

O cansaço físico era tremendo, as pernas doíam muito e sentia que ia perder várias unhas, mas nada vai apagar essa experiência incrível, eu havia corrido 80km pelos Andes, e depois que as bolhas curarem e a dor passar, o orgulho vai durar para sempre.

Enzo Amato

Leia como foi a parte 3.

Fotos da prova

18 ideias sobre “Ultra Maratón de Los Andes, como foi. (parte 2)

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  3. Realmente incrível…a corrida foi uma linda vitória.
    Além de correr muito, vc é um ótimo escritor. A gente fica crudada na tela e não se cansa de ler. Estou esperando a outra parte.
    Parabéns vc é formidavel.
    Temos orgulho de vc.
    Bjs.

  4. Caraca Enzo !!! Parabéns !!!
    To de molho descansando da Ultra de Bertioga Maresias 75k Solo e vagando pela Internet nesse quando acessei o seu relato !!!
    Grudei na tela lendo o parte 1 e 2 … com certeza tem que ter a PARTE 3 “Pós Prova” que servirá para mim também …
    Depois de 70 km aparece a Serra de MAresias com toda a sua imponência desafiadora , estava morto mas consegui subir num trotinho sem vergonha de 6kmh e ainda fui ultrapassado por alguns corrdeores que caminhavam mais forte.
    Porém depois do seu relato, vejo que isso foi fichinha perto do que vc enfrentou nos Andes !!!! Simplesmente fantástico e inspirador !!!! As dores passam porém o orgulho durará para sempre !!!!
    Parabéns !
    Akira

    • Fala Akira, obrigado pelas palavras e com certeza a parte 3 pode render um post legal, vou começar já a escrever algo sobre a recuperação, que me surpreendeu.
      Parabéns pra você também por ter encarado outra vez a Bertioga-Maresias, em qualquer Ultra o bicho pega.

  5. Parabéns Enzo !!!

    Quando li a primeira parte fiquei mais curioso para ler a segunda, e confesso que por um momento achei que você tinha desistido da prova pelo seu cansaço dito no texto.

    Grande desafio, parabéns.

    Abraços !!!

    • Marcello, te digo que algumas vezes, nessa prova, meu corpo pedia e meu psicológico pensou em desistir, como sou eu que pago minhas contas e não preciso provar nada a ninguém, não teria problema nenhum se eu parasse porque meu objetivo é sempre curtir, mas já tinha estabelecido na minha cabeça que eu havia treinado para concluir e que eu podia concluir, mesmo sabendo que seria muito difícil como realmente foi. Se eu tivesse desistido, teria me arrependido e voltaria ano que vem.
      Abraço.

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