Depois de toda a terrível experiência psicológica de passar pelos EUA antes de chegar no México, as coisas foram entrando nos eixos ao longo dos dias, sábado bem cedo fiz um reconhecimento do local da natação.
Um parque a 7km do hotel, onde os turistas agendam um nado com os golfinhos, não era nosso caso, os atletas estavam lá para sentir a correnteza, localizar as boias, fixar pontos de referência, fui de bike para testá-la, deixei tudo na transição, e quando entrei na água, me espantei, aquela sensação foi a primeira certeza de que o Ironman Cozumel ficaria na minha memória para sempre, o mar era cristalino como no vídeo da prova, visibilidade de muitos metros, era possível enxergar o fundo com detalhes a mais de 10 metros pra baixo, nadei por menos de 10min, só queria me ambientar, voltei para o hotel.
As 11:30 eu teria que levar a bike com as sacolas para a transição nesse mesmo local, tudo feito com tranquilidade, algumas filas, mas nada demorado, voltei para o hotel com o ônibus para almoçar,descansar e a noite seguir para o jantar de massas.
Dormi muito bem e não tive problemas para despertar às 4:45 com ruído dos outros atletas perambulando pelo hotel. Lá pelas 5 o restaurante estava lotado de atletas, prontos para viver ao máximo aquele 27/11. A partir das 5:30 os primeiros ônibus deixavam os hotéis sede e seguiam para o Park Chankanaab onde seria a largada e local da T1, 15 minutos depois já tínhamos acesso à transição, e como usar roupa de borracha era proibido, só fui dar uma última olhada na bicicleta, e faltando mais de uma hora para a largada, com o dia ainda escuro, eu já estava pronto, fiquei olhando o movimento, a fila de atletas com as bikes esperando para calibrar os pneus, muitos mecânicos, mas que não davam conta de tantos atletas, alguns preocupados, nervosos, concentrados, outros tranquilos, rindo, conversando, acho que me encaixo no grupo dos tranquilos, afinal estava tudo certo e estava confiante com toda minha preparação audaciosa de poucos treinos, só esperei mais tempo para passar o protetor solar, entreguei a sacola de roupas, a temperatura era agradável. Diferentemente do Ironman de Floripa, não tínhamos acesso a sacola da transição, o que foi deixado no sábado era o que seria usado no Domingo. 6:30, já com protetor solar, fui para a área de largada. Homens e mulheres largam juntos e elas fazem número.
Largada espetacular, mais de 2300 atletas dentro de um mar tranquilo de água cristalina onde se podia enxergar claramente os mergulhadores que nos filmavam do fundo. Temperatura da água 27.3° muito boa para nadar. As 7 horas pontualmente o mar se transforma em branco com as braçadas dos atletas, estava lá para curtir minha prova e saber como Cozumel ia me encher os olhos com suas belezas naturais, e apesar do tumulto na superfície, desviava minha atenção para o fundo, nos peixes que nadavam tranquilamente, ao contrário de nós. Era uma volta de 3,8km, fui sem relógio e nem percebi pra que lado a correnteza levava, queria fazer meu melhor, mas não deixar de aproveitar toda a prova. Esse tumulto inicial não foi diferente de qualquer outra prova de largada única com mais de 2mil pessoas, portanto já sabia o que vinha pela frente, aliás, nem precisei olhar pra frente, o sol nascia exatamente à nossa direita, era só mantê-lo ali e seguir adiante, lembro-me que ao perceber que a parte da natação estava por acabar, ao mesmo tempo que aprendi a comemorar cada modalidade conquistada, também me lamentava por ter que abrir mão daquele mar e da sensação de estar fazendo um Ironman ali.
Ao sair da água, feliz da vida, um atleta me diz que havíamos feito 1h02, comemorei mais ainda porque nem pensava em fazer um tempo tão bom, passei pelo chuveiro para tirar um pouco a água salgada do corpo, fiz a transição com calma e depois de deixarmos o Park Chankanaab, não voltaríamos mais pra lá, pois a transição 2 era em outro local, mais perto do centro.
Comecei o ciclismo muito bem, o percurso me impressionou desde o início, daríamos 3 voltas de 60km pela ilha, não haviam carros, a pista era toda nossa, mais da metade da ilha é só de vegetação, árvores de 3 a 5 metros e isso era tudo o que eu via no início da volta, linha reta de asfalto com árvores dos dois lados até onde a vista alcançava, calor e sol, a outra parte do percurso era a beira mar, com ventos laterais e paisagem de tirar o fôlego, a parte visualmente menos atrativa do percurso era onde o vento ajudava mais, então nem me importei em ficar alguns kms por aí, para fechar a volta passávamos pelo centro e onde o público mais se concentrava e gritava, ao fim da primeira volta minha média estava em 33km/h, muito mais forte que meu objetivo de 31km/h, mas sabia que o vento havia ajudado bastante e que o dia ainda não estava tão quente, dois fatores que mudariam em breve, ainda no ciclismo.
Na segunda volta o vento já não ajudou tanto, mas também não atrapalhou, o calor já pegava forte, mas a brisa amenizava a sensação, a média da bike já estava em 32km/h, me sentia bem, ao passar pelo centro abria mão da posição aerodinâmica para acenar e agradecer ao público que aplaudia a todos nós, receber esse carinho valia mais do que ganhar alguns segundos, foi na terceira volta que as coisas começaram a se complicar, até então estava comendo regularmente e aos poucos, mas só o cheiro doce dos repositores que havia levado e dos que a organização ofereciam me deixavam enjoado, em provas longas as decisões tem que ser tomadas rapidamente, dançando conforme a música e levando em conta experiências passadas, resolvi parar de comer por algum tempo para ver se o mal estar passava. Tentava desviar minha atenção, curtindo o visual do percurso, lembrando que estava em Cozumel fazendo uma das provas que mais gosto de fazer, mas também lembrei de que não estava lá para sofrer, lembrava de um senhor chamado Peter de 58 anos que conheci a caminho da transição, e já havia feito 63 vezes o Ironman, não deve ser o sofrimento que atrai uma pessoa a fazer um triathlon por tantas vezes, mas sim o prazer e mérito de ser um concluinte passando pelas adversidades que aparecem, então resolvi diminuir o ritmo para ver se me sentiria melhor, nada feito, o vento segurava, o calor castigava e vez ou outra uma chuva tropical nos pegava pelo caminho. Em determinado momento um grupo de ciclistas encostou e tentei segui-los, má ideia, o fiscal na moto me deu uma punição e teria que parar mais afrente num dos vários postos de penalização espalhados pelo percurso, não me lamentava por isso, parei por 4 minutos na tenda, fiquei na sombra, estiquei o corpo e aproveitei para tomar um sal de fruta para ver se meu estômago melhorava, comi um biscoito salgado que levava comigo, mas acho que nada disso me ajudou muito porque segui com a mesma sensação. Terminei a bike com média de 30,5km/h ou 5h54min, ainda uma média boa.
Ao chegar na transição 2 deixei a bike com o staff, peguei minha sacola e fui me trocar, o vestiário era pequeno e tive que me arrumar em pé mesmo, tudo com calma, protetor solar, vaselina nos pés, boné, relógio e fui correr, a estratégia era sair devagar até o corpo se acostumar com o calor sem vento, sentia que corria tranquilamente e para minha surpresa o primeiro km fiz em 5:30, muito bom para uma maratona em Ironman, logo no segundo km uma chuva muito forte caiu em Cozumel e mesmo assim o público estava nas ruas, a maioria em locais cobertos e vários debaixo da chuva junto aos atletas dando a maior força, era fantástico ver a vibração do público, eles nos viam como super homens e o único que eu podia fazer era sorrir, acenar e agradecer, e gracias foi o que eu mais falei durante a prova. A corrida eram 3 voltas de 14km, ida e volta, metade perto do público no centro e outra metade um pouco mais afastado com alguns hotéis pelo caminho, também com torcida, em vários momentos cheguei a pensar que concluiria a prova com meu melhor tempo, pois a primeira volta fiz muito bem passando os 14km com 1h15 consistente e ritmado, me hidratava com isotônico, mas continuava sem comer, mais adiante comecei a caminhar nos postos de hidratação, o ritmo começou a cair, sabia que estava sem energia e o que tentava comer não me caia bem, lembrei que não estava lá para sofrer e caminhar não me fazia sofrer, por isso optei por caminhar, foram mais de 10km de caminhada comendo uma coisinha aqui outra ali, tentando correr de vez em quando, mas nada fazia o mal estar ir embora, para minha surpresa, quanto mais a noite avançava, 17:30 já estava escuro, mais as ruas se enchiam de gente para torcer, um atleta americano passou por mim e me perguntou se eu conseguiria correr 100 passos com ele, tentei, mas deixei a contagem por conta dele, ao final dos 100 ele perguntou se conseguiria mais 100, e assim fomos por mais algumas centenas de passos, bem lentamente e perto do público, outra vez lembrei que não estava lá para sofrer, agradeci o incentivo e o incentivei a continuar sem mim, durante minha longa caminhada, em determinado momento, tentei outra técnica de respiração, inspirar rapidamente e profundamente pela boca e expirar devagar, isso avisou meu cérebro que eu estava um pouco melhor e a partir do km 34 minha mente começou a fazer uma contagem regressiva de que faltavam poucos kms, arrisquei várias corridinhas leves, e a cada uma delas percebi que precisava de menos passos para caminhar, fazia os kms a 9:30 e conforme faltavam menos kms consegui apertar o passo, para quem estava caminhando cada km a 11:15, fazer a 9:30 era rápido, e do km 35 em diante a cabeça tomou conta, e meu ritmo por km ia aumentando, 8:21, 8:08, 7:48, 7:09, 6:48, 6:09, fiz o último km em 5:24. Terminei feliz da vida, não pelo tempo final da prova, 12h33, mas pelo significado que ela teve, lógico que ela foi difícil, mas não sofri, cheguei com dignidade e em vários momentos do percurso lembrei dos amigos, que sem dúvida estavam torcendo por mim.
Sem dúvida quero voltar para Cozumel e fazer essa prova novamente, sentir a vibração e admiração do público para com os atletas e depois ainda curtir muita praia de água cristalina, sol e comida mexicana com a Paula.

Depois do café na pousada em Tulum, bom e barato, mas será que é bonito? É o lugar para estender a viagem, fica a 2h30 de ônibus de Cancún.
Daqui 6 meses tem o Ironman aqui no Brasil, galera reunida novamente e muita história pra contar.
Enzo Amato







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Parabéns pelo comentario. Fiz a prova e senti tudo o que relatou, 2012 meu calendario está fechado, mas 2013 já tem um lugar definido. Abs
Parabéns pela sua prova também Antonio, espero que você, assim como, eu tenha mais curtido do que sofrido. Em 2013 nos vemos lá!
Parabéns Coach, que bela transcrição da prova e que paisagem hein, se for voltar me chama, rs.
Obrigado Léo. 2013 tá logo aí! rs