Dia 27/04/2012, falta um mês!

Dia 27 de maio de 2012, nosso grupo de 10 pessoas e mais 1990 atletas estaremos prontos para mais um Ironman Brasil.

Dentro do nosso grupo, 4 vão pela primeira vez, o objetivo deles é terminar sem precisar experimentar o próprio limite, por mais que o desafio seja longo, eles não saberão o que é o esgotamento total, onde o corpo não pode mais continuar com a mesma técnica do início. Cansados todos chegarão, pois a prova vai demorar mais de 11, 12, 13 horas, mas tenho certeza que se precisassem correr mais 5 ou 10km conseguiriam e o fariam, com o mesmo sorriso no rosto que os acompanhará por todo o dia. A disposição de reparar nos detalhes, curtir a torcida, a família, o evento, o ambiente e agradecer aos staff, que voluntariamente nos ajudarão durante todo o evento, será a mesma desde a hora que chegarmos, às 5:15 da manhã para a marcação dos números, até a chegada do último atleta do nosso grupo e depois, até a chegada do último colocado, perto da meia noite. Buscar o título ou a medalha é parte do processo de conquistar a essência e o espírito Ironman. Foi isso que buscamos trabalhar durante a preparação física e psicológica, e hoje estou certo que os novatos saberão curtir a prova, aprenderão com ela, e lembrarão de tudo o que viveram e tiveram que superar para ter o espírito Ironman e aproveitá-lo durante os desafios da vida dali pra frente.

Seis deles já debutaram na prova, e vão com objetivos maiores, não querem que sobre vontade de correr mais um pouco no final, a vontade terá que se reverter em velocidade, e a chegada acontecer com o combustível no final e a luz da reserva acesa. Mesmo para os 6 que vão com a faca entre os dentes, é ponto crucial para realizar bem a prova, pensar em coisas boas, amigos, parentes, agradecer aos staff sempre. De certa forma eles nos admiram, acordaram mais cedo que a gente só para nos entregar água, e de graça. Agradecer a essas pessoas é como transformar todos em seus torcedores particulares, e durante o percurso isso faz muita diferença.

Chegada com meu pai no Ironman BRA 2008 (Foto Chris Kittler)

Durante o período de preparação todos entenderam que o maior foco do grupo é aproveitar a prova e transformar o tempo entre a largada e a chegada numa experiência de vida. Não vamos para fazer uma prova, vamos para nos transformar, vamos para fazer o que treinamos, mas também para aprender com acertos, erros, com os outros e cruzar o pórtico como pessoas melhores.

Enzo Amato

Imprevistos acontecem, mas a gente se vira!

Era pra ser o treino mais legal da preparação para o Ironman Brasil 2012, mas como todo esporte praticado ao ar livre, dependemos da mãe natureza, e desta vez ela resolveu cobrar caro pelo treino.

Me encontraria com o pessoal as 4:45, aqui em frente de casa, mas nem precisei de despertador, uma tempestade caiu forte e os raios logo me fizeram levantar. Era desanimador, a frente fria se adiantou e já de madrugada trouxe a chuva. Segui a rotina normal, tudo já estava pronto, só precisava tirar as comidas e bebidas da geladeira e passar para o isopor, tomar café e esperar a galera.

Madrugada, era só o início.

4:45 a chuva deu uma trégua, o Diogo começou a arrumar as bikes na carreta enquanto o pessoal jogava conversa fora. A arrumação das bikes leva um certo tempo, pois a carreta balança muito durante o trajeto e por isso, uma deve ficar bem protegida da outra para que nada rasgue ou risque. Saímos às 6 e logo a chuva voltou, paramos num posto na Ayrton Senna para encontrar com o pessoal do Midiasport que faria nosso vídeo e algumas imagens durante o treino. Pesei os atletas para poder avaliar, junto com nossa nutricionista, quanto eles se desidratam durante um treino longo. O plano era começar a pedalar a partir de Mogi das Cruzes e chegar até Campos do Jordão totalizando 115km. Tivemos que mudar os planos logo no início. A chuva era muito forte e a neblina reduzia muito a visibilidade dos carros e caminhões, ficaríamos muito vulneráveis na estrada, comprometendo a segurança de todos, por isso a ideia foi prolongar um pouco mais o trecho dentro da van até o próximo posto.

Na esq. Edu, Enzo, Silvio, Gustavo, Witney, Otavio, Clodoaldo, Léo, Rafael, Marchi e Diogo

Ao chegar, estávamos dispostos a começar, pois já passava das 9, quando de repente a chuva diminuiu até cessar. Nessa altura o treino fora passado de 115, para 75km, mas isso não me preocupava, a parte principal eram os 18,6km finais da serra de Campos, lá o pessoal faria muita força, independente do que tivesse pedalado antes.

Ainda sem saber o que vinha pela frente

Céu escuro em alguns momentos, pista molhada, mas sem problemas, seguimos animados até o pé da serra para reunir o grupo novamente e começarmos juntos a subida.

Nesse  momento a mãe natureza resolveu trazer a chuva de volta e deixar uma lição que seria aprendida só no final. Começamos a subir enquanto muita água descia pela pista, em alguns trechos virava enxurrada e nem a dor constante da subida nos deixava esquecer ou vacilar com o percurso traiçoeiro e liso. Subimos com muita garra e energia para vencer a longa subida. Ser um Ironman exige determinação e por mais que o treino parecesse curto na distância, ele era muito desafiador e exigiu, dos mais rápidos, exatamente 1h18 só para subir os 18,6km, outros precisaram de mais de 2 horas e era nítida a vontade de chegar de cada um.

O Clodoaldo, Diogo e eu fomos os primeiros a chegar ao topo, paramos com a intenção de esperar os outros, mas 5 minutos parados debaixo da chuva, que não parou desde o início da subida, foram suficientes para começarmos a tremer de frio. Comemorávamos a subida conquistada, mas não parávamos de tremer. O combinado era descer parte da serra para nos reunirmos num mirante, mas só de pensar em descer, tomando vento na cara e sem poder aquecer o corpo, nos dava medo. O Diogo nos emprestou a jaqueta, uma camiseta longa e demos meia volta, na descida cautelosa tivemos força para incentivar os outros que ainda subiam e não sabiam o que os esperava. Ao chegar no mirante fomos obrigados a entrar num dos trailers para nos aquecermos ao lado do fogão, enquanto o chocolate quente era preparado, não parávamos de tremer e por mais que me preocupasse com a turma, não tinha condições de ajudar, naquela hora eu que precisava de ajuda. Vi que todos chegavam ao ponto de encontro, muitos usavam as roupas que pretendem usar no dia da prova, nada para o frio, logo em seguida a van chegou e rapidamente todos buscaram por roupas secas e agasalhos, depois de alguns minutos, com os pensamentos no lugar, fizemos a segunda mudança de planos, resolvemos encerrar o treino. Nos faltava chegar a Sto. Antônio do Pinhal para correr 15km onde 9 eram de forte subida até o pico agudo por estrada de terra, provavelmente a van não conseguiria subir e ficaríamos mais expostos ao frio e a chuva, arriscando mais a saúde. Uma semana atrás havíamos feito 30km de corrida enquanto outros fizeram meio Ironman, portanto os 15km não nos ajudariam muito, pelo contrário, naquelas condições só atrapalharia, era um treino para curtir a paisagem e fazer força. Se optássemos por correr, a paisagem ficaria na imaginação, pois com aquela chuva o céu estava completamente fechado, e força podemos fazer durante os treinos da semana.

Bikes na carreta e pessoal almoçando.

Em consenso decidimos ir até a pousada com a van, tomar um banho quente e almoçar. Por mais que um Ironman seja duro na queda, não podemos lutar contra a natureza, pois somos parte dela, tenho certeza que tomamos a decisão mais acertada, e hoje temos mais uma história de superação pra contar, um aprendizado, e estamos todos bem.

Falta mais um longão antes do Ironman!

Enzo Amato.

O treino mais legal da preparação!

É o mais legal, mas está longe de ser fácil! Pelo que já fizemos nesta preparação, a distância não impressiona, pois já fizemos treinos muito mais longos, mesmo assim é um desafio e tanto.

Nesse treino que envolve as cidades de Campos do Jordão e Santo Antônio do Pinhal, pedalaremos 115km, sendo os últimos 15km, a serra de Campos, será a primeira parte do desafio, onde os mais rápidos subirão em 1h30 com velocidade média de 10km/h e os mais lentos mais de 2 horas. Depois ainda teremos que subir correndo até o topo do pico agudo que fica em Santo Antônio do Pinhal, são apenas 9km, mas tão ingrime que as vezes a corrida vira escalaminhada.

Deixo os detalhes para o próximo texto, aguardem!

Enzo Amato.

Minha vida não vale um pedágio!

No trânsito nos transformamos em pessoas intolerantes, ficamos exigentes e qualquer inconveniência é motivo para irritação.

Nosso treino de ciclismo de sábado, 14/4/2012 era de 160km e para isso usamos as estradas, fazemos longos trajetos e sempre pelo acostamento. Recentemente, ao menos aqui no estado de SP, até as motos pagam pedágio e isso fez com que as praças de pedágio não tenham sequer um pequeno espaço ao lado, ou seja, ou se passa pelo pedágio, ou se passa pelo pedágio! Nossa única alternativa é passar, ouvir o alarme de evasão e ver a cancela fechar, impedindo a passagem dos veículos até que um funcionário da concessionária libere-a novamente, isso não leva mais do que 5 segundos, pois bem, estávamos em 5 ciclistas, prestes a sair do Rodoanel para acessar a Imigrantes, passamos todos juntos pela cancela, o alarme tocou e um caminhão foi obrigado a frear e esperar a liberação do guichê, normalmente ouvimos a funcionária da SPMar esbravejar e gritar que não podemos passar por ali, mas sem nos dar nenhuma outra alternativa, a não ser renegar nossa existência, e assim que algum acidente acontecer, dizer que não deveríamos estar ali.

Como não existe passagem, a não ser pelo pedágio, também não existe acostamento por cerca de 200m. Os 5 segundos que o caminhoneiro ficou parado, na cabeça dele, foi motivo suficiente para nos colocar em sério risco, e nessa parte sem acostamento, passar a menos de 30cm de distância de todos nós, de propósito, acelerando e com a pista da esquerda livre. Na minha frente haviam pais de família, filhos e eu. 5 vidas e 5 famílias que poderiam ter sido destruídas por causa de um motorista que ficou alguns segundos parado no sem parar.

Até que ponto nossa pressa vale o risco de matar uma pessoa?

Me preocupa demais essa situação, pois o motorista realmente acredita que eu não deveria estar ali de bicicleta, e se ele me matar a culpa será minha! Mas veja o que diz o código brasileiro de trânsito: Art. 58.Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores. O aumento no número de mortes de ciclistas é devido ao aumento da prática do ciclismo, e esse número só tende a aumentar se não existir punição severa aos que acham que educam ciclistas no trânsito tirando fina deles.

Fim de semana que vem tem mais treino, espero que sobreviva a ele.

Só para não generalizar, quando tem algum veículo parado no acostamento, somos obrigados a fazer sinal e entrar na pista, e isso acontece com certa frequência. Nesse mesmo dia vários caminhões eram solidários, mudavam de pista para poder ultrapassar a uma distância segura, nós agradecíamos e eles buzinavam como retribuição. O trânsito é feito de pessoas, mal educadas e bem educadas, e quando saímos de bicicleta, torcemos para não topar com os maus e assim continuarmos vivos.

Enzo Amato.

180km Sábado e 30km Domingo

Foi um fim de semana surpreendente.

Surpreendente aos que vão para o Ironman pela primeira vez, pois já começam a perceber que a distância pode ser batida. Surpreendente para os amigos dos atletas, que custam a acreditar na distância. Surpreendente pra mim, como treinador, que pude ver a evolução de todos até chegarmos nesse fim de semana exigente para o físico e a mente sem lesões e com tempo de folga.

Sábado as 5 da manhã já estávamos reunidos, ajeitamos 2 bikes em cada carro e seguimos para a Rodovia dos Bandeirantes.

Na esq. Witney, Edu, Gustavo, Marchi, Enzo, Silvio, Léo, Otavio e Rafa.

Chegamos a um posto de combustível, montamos as magrelas, enchemos as caramanholas, carregamos os bolsos com o que comeríamos no caminho e pontualmente as 7 começamos o treino propriamente dito. O vento estava bem parecido com o que encontraremos no Ironman Brasil lá em Floripa, ajudando na ida e cobrando na volta, mas como diria meu amigo Givaldo, “pra quem está bem treinado, quanto pior melhor”o vento nos fez chegar ao retorno, com 92km completados, em 2h30 mesmo com o sobe e desce do percurso, que não é fácil, foi um tempo muito bom, e estávamos preparados para a volta, o sol já começava a esquentar e fizemos uma parada no km 120 para reabastecimento e também para reunir o grupo. Cerca de 20min de parada, até que todos comprassem água, comessem um lanche… saímos novamente para os últimos 60km, ainda nos restava cerca de 2 horas de treino e já havíamos pedalado por quase 4 horas, ou seja, a incerteza de chegar bem ao final ainda existia, e terminar bem ainda era o objetivo a ser alcançado, para com isso aumentar nossa confiança. E não deu outra, entre mortos e feridos, chegamos cansados, mas inteiros e felizes por ter vencido esse grande desafio físico e mental.

Como o fim de semana era exigente para os atletas, e também para as famílias, muitos arrumaram as coisas e logo retornaram pra casa para cumprir seus compromissos com a família. Outros seguiram para um restaurante perto dali para falar sobre o treino e comemorar. Chegamos em casa por volta das 17 horas. Recomendei que todos bebessem muita água para começar o domingo bem hidratados para nossa corrida de 30km.

Acordamos cedo novamente e 6:30 estávamos no ponto de encontro, em 45min de carro chegamos em Ribeirão Pires, todos carregados e prontos, começamos a correr as 7:40.

Da esq. Gus, Rafa, Léo, Silvio, David, Edu, Clodoaldo, Witney, Enzo, Marchi, Robson, Leandro, Edu e meu pai de fotógrafo.

Normalmente recomendo que façam mais lento que o ritmo de prova, para a recuperação muscular ser mais acelerada depois do treino, mas como a semana seria leve e o próximo fim de semana de folga, todos foram no ritmo pretendido para a prova, rapidamente os 14 formamos pequenos grupos e seguimos pelo acostamento de uma estrada tranquila onde ciclistas e poucos carros seguem para Paranapiacaba. Fizemos um trecho por uma estrada de terra e abastecemos as garrafinhas no meio do caminho numa bica já em Paranapiacaba, foto e uma rápida passada pelo banheiro, que juntando tudo não somou mais do que 5 minutos, e saímos novamente para a segunda metade da corrida. Ritmo de treino recuperado e cada vez mais próximos do êxito de um fim de semana crucial para acreditarmos que faremos um ótimo Ironman. Os mais rápidos terminaram os 30km em 2h27 e a partir daí foram só cumprimentos a cada um que chegava, 1 hora mais tarde o último corredor do grupo chegou sem menos glória ou orgulho. Meu pai fez 28km de caminhada em 4 horas e também concluiu orgulhoso o desafio que se propôs a fazer.

 

Voltamos pra casa com a sensação de que o Ironman se aproxima tão rápido quanto nossa evolução nos treinos, e aquela dúvida inicial de como fazer para suportar um dia inteiro de esforço físico, vai se transformando em certeza, através de cada gota de suor derramado nos treinos.

2 semanas após esses treinos alguns farão uma prova de meio Ironman e outros farão um repeteco deste treino. Aguardem as novidades.

Enzo Amato.