Bertioga – São Sebastião – Maresias (solo e revezamento)

Para os que enfrentarão cada metro dos 75km deixo minhas percepções e informações úteis do que virá pela frente.

O percurso é lindo, praticamente 2/3 pela areia da praia, muitas praias, uma pequena parte por estrada de chão e muitas subidas e descidas no terço final da prova, já no asfalto.

Os meses de treinamento são duros, um bom planejamento distribuindo os treinos longos, com as respectivas recuperações, cansaço generalizado misturado com disposição e a pulga atrás da orelha por não saber o que vai acontecer. Tanto num Ironman, quanto numa ultramaratona temos que nos contentar em programar o que está a nosso alcance e saber lidar com o imponderável no momento que ele aparece, e tenha certeza, alguma coisa vai acontecer, desde uma pequena variação na temperatura que pode minar suas forças aos poucos, até câimbras ou dores “novas”.

Tento deixar registrado algumas situações que me foram importantes em 2008, quando fiz a prova na categoria solo, e acredito que algumas servirão para o pessoal do revezamento também.

Encontre um amigo guerreiro tanto quanto você para te acompanhar de bike como staff. Seu staff deve ir com uma mountain bike, de preferência com pneus de trilha. Usar mochila é a alternativa mais simples caso o carro de apoio do corredor (carro particular) esteja por perto nos pontos de troca, para reabastecer o staff de bike. Caso o corredor não tenha carro de apoio e só conte com o ciclista, um bagageiro com sua caixa, ou cesta, contendo todos os alimentos e bebidas para a prova vão servir. É muito importante que o ciclista esteja sempre abastecido e que o corredor não precise racionalizar na alimentação ou hidratação, pois qualquer detalhe faz muita diferença numa prova tão longa. Cinto de hidratação, comida, tudo isso com o staff, o corredor deve ir o mais leve possível, sem peso extra. O ciclista, por estar sempre ao lado do corredor, nunca vai pedalar num ritmo a ponto de conseguir aquecer o próprio corpo, por isso este deve ir bem agasalhado e preparado para vento, eventuais chuvas ou sol forte pelo caminho. O ciclista também precisa comer e se hidratar, afinal são muitas horas.

Cuidado com os pés. Na edição de Outubro de 2008 uma chuva constante nos acompanhou a prova toda, e além de apenas os pés molhados por causa dos inúmeros córregos que cruzam o percurso, um deles com água na altura dos joelhos, estávamos constantemente molhados e o risco de bolhas era muito grande. Antes da prova passei uma boa camada de hipoglos em todos os dedos, e também nos pontos de maior fricção, e ainda assim parei no km 55 para reaplicar como forma de prevenção, e obtive sucesso pois completei os 75km em 7h40 com os pés molhados, mas sem bolha.

Roupas. Dê preferência para cores claras, pois além de favorecer a troca de calor, são de fácil visualização, pois um bom pedaço será feito pelo acostamento e o trânsito não será bloqueado por causa da prova, e ser visto pode fazer toda diferença.

Trajeto. Sempre que estiver na areia das praias busque pela menor distância entre você e seu destino, para assim não correr mais que a distância certa da prova, que já é muito. Predominantemente será mais próximo da água com areia mais firme. A única praia que tem areia fofa é a de Maresias e mesmo assim uma distância curta, por isso não vale a pena ir com tênis de trilha, que são mais pesados, a prioridade é usar seu tênis normal de corrida, aquele que você usou nos treinos longos.

Ritmo. É lógico que o início vai parecer fácil, é lógico que você vai se sentir bem, afinal você está treinado para correr uma distância bem longa. Mesmo se sentindo super bem você deve correr num ritmo muito confortável desde o início, mantendo os batimentos em ritmo fácil de treino longo e não de prova. Os primeiros colocados começarão num ritmo que você até pode considerar fácil para uma meia maratona, mas a prova é muito mais do que isso e você deve seguir seu plano, e caso o clima esteja quente vá mais devagar ainda. Tudo isso fará diferença no final.

Subidas e descidas. Elas só aparecem depois do km 55, ou seja, quando você já estiver bem cansado. Nas subidas mais íngremes é quase impossível correr, nelas o que falta é pulmão, mas nas descidas o que falta é força nas pernas para suportar o peso do corpo e nessa hora quem sofre são os joelhos, durante minha prova a dor era tanta que a solução foi descer de costas, é impressionante como o corpo tenta encontrar formas de driblar o que o cérebro tenta dizer, mas enfim, era dessa forma que eu conseguia descer, e assim eu fui. Tive até câimbras, algo que raramente tenho, mas como disse antes, temos que nos precaver com tudo o que está a nosso controle e deixar o imponderável para ser resolvido da melhor maneira. Comparando sucintamente com um Ironman, onde o cansaço é geral, na ultramaratona o esgotamento só é perceptível da cintura pra baixo. O ponto em comum é que as duas provas são desafios extremos, exigem planejamento e treino específico e por mais que sejam planejadas, alguma coisa diferente vai acontecer e você vai ter que se virar, se superar e entrar para um grupo seleto de pessoas persistentes.

A organização. É praticamente uma prova de auto suficiência, não adianta reclamar que faltou água porque é justamente pra isso que você deve levar seu staff. Os carros particulares que levam os atletas das equipes são bem identificados com adesivos fornecidos por eles. O tempo de passagem em cada posto é aferido por chip. É importante que todos leiam muito bem o regulamento para tirar todas as dúvidas antecipadamente e correr com ajuda do regulamento e não contra ele.

Se ficou alguma dúvida é só me escrever.

Aproveite a prova e divirta-se!

Enzo Amato.

3 ideias sobre “Bertioga – São Sebastião – Maresias (solo e revezamento)

  1. Olá Enzo, parabéns pelo post e principalmente pela prova realizada! Estou planejando fazer o percurso de bike, você saberia me dizer se a organização vai criar problemas por eu ir sozinho pedalando? Se você souber de algum corredor que esteja precisando de um Biker me de um toque. Forte abraço.

    • Olá Ilciney. Não acredito que eles criem problema com sua presença de bike, já que vai ser difícil você atrapalhar algum corredor. Não conheço ninguém que esteja sozinho, mas quem sabe outro leitor aceite sua proposta/ajuda. Lá no dia da prova veja se a organização anuncia sua ajuda para os corredores.
      Abraço.

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