Mountain Do Atacama, treinos. (parte 3)

Há 16 semanas do Mountain Do Atacama já podemos pensar em volume para os que nunca enfrentaram os 42 ou 23km.

Procuro deixar as orientações para dois grupos distintos, o grupo 1, de pessoas que nunca correram a distância da prova ou tiveram poucas experiências, e o  grupo 2, de pessoas que já tem boa experiência na distância que vão encarar, conseguem fazer treinos longos, acima dos 25km, e se sentem bem para um repeteco na semana seguinte. Sabendo em que tipo de grupo você se encaixa, ficará mais fácil visualizar o que vem pela frente. É muito difícil para mim, sentado na cadeira e deste lado do teclado, generalizar todas as informações de forma que sejam úteis para muitos, já que cada um tem um histórico esportivo, experiências e organismos distintos, por isso procure entender a ideia geral dos textos 1 (ler texto 1), 2 (ler texto 2) e 3, e transfira para sua realidade apenas o necessário com a ajuda do seu treinador.

Comece a fazer treinos longos, a partir do seu condicionamento atual, sem exagerar, pois ainda temos muitas semanas para, gradativamente, aumentar o tamanho dos treinos.

Defina seu objetivo nesta prova. O meu é correr confortavelmente bem para curtir o visual! Com objetivo e grupo em mente, o próximo passo é entender que um corredor resistente termina a prova, um veloz não, um resistente e veloz termina antes, ou seja, preocupe-se antes de mais nada com a resistência. Se a distância é um desafio para você, preocupe-se em fazer bem os treinos longos, eles que te darão confiança para chegar bem no Chile. Se você não estiver bem disposto para fazer qualquer outro tipo de treino na semana, não faça, poupe energia para suportar os treinos mais longos da programação. Se você sentir que tem conseguido suportar cada vez melhor os treinos longos, você está no caminho certo!

  • Estabeleça os dias dos treinos longos:

Conte as semanas ao contrário, ou seja, a partir do dia da prova, e programe seu treino mais longo para ser feito 3 semanas antes, e outro treino meia hora mais curto, 6 semanas antes.

  • Quanto deve durar o treino mais longo?

Se seu ritmo confortável de corrida faz com que você projete terminar os 42km entre 3h20 e 5hs, seu treino mais longo não precisa durar mais do que 3h. Isso dentro das suas possibilidades, com um aumento gradativo dos treinos, e dentro do que você acha viável para sua saúde e integridade física.

O mai importante é que o treino longo seja sempre em ritmo leve, para diminuir o risco de lesão, e se recuperar mais rápido, deixe para treinar seu ritmo de prova durante algum treino mais curto na semana.

Com esse rascunho anotado no seu calendário você conseguirá programar os outros finais de semana, partindo do seu treino longo atual e aumentando o tempo de treino a cada 15 dias, até 3 semanas antes da prova.

Se a cada 15 dias você vai aumentar o tempo do treino, nos finais de semana intermediários você pode fazer treinos curtos, de aproximadamente 10km, em ritmo de prova para o grupo 1, e acima do L1 para o grupo 2.

Para os que farão 23km o pensamento é o mesmo, basta reduzir proporcionalmente o que foi proposto para o pessoal dos 42km.

Lembro que a melhor pessoa para fazer a programação dos seus treinos é seu treinador, mas caso tenha ficado alguma dúvida é só me contar um pouco da sua experiência em outras provas, os tempos, dias de treino na semana e que tipo de treino costuma fazer, que vou procurar te ajudar da melhor forma possível.

O próximo texto é sobre os cuidados e o que levar na sua mochila de viagem.

Bons treinos

Enzo Amato.

O caminho de Santiago (2)

O caminho X ironman.

Por ser professor de Educação física e gostar de provas longas, era impossível não relacionar algumas características do caminho de Santiago com provas como a maratona ou Ironman, que por vezes eram bem parecidos, mas por outro lado, em outros aspectos eles eram exatamente o oposto.

Meu objetivo principal quando treino pessoas comuns para um Ironman, é fazê-los enxergar o que poderia ser apenas uma prova se transformar numa experiência de vida. E por ter vivido o caminho dessa forma, resolvi compará-los.

Eles são parecidos nos altos e baixos que o corpo e a mente enfrentam ao longo do trajeto, momentos em que você se pergunta porque está fazendo aquilo e momentos de felicidade a ponto de cantar como se estivesse no chuveiro. São parecidos quando se almeja um simples copo d’água, quando o sol ou o frio ou a chuva castigam e o percurso ainda é longo pela frente, quando bolhas e dores musculares que você nunca teve aparecem, e somem. São parecidos pela incógnita de não saber o que vai acontecer com seu corpo mais adiante ou nas próximas horas, porque por mais treinado que se esteja, em desafios tão longos as surpresas acontecem e só nos resta corrigir e remediar. Nos aprendizados para a vida, na superação que mostra como somos por dentro e como reagimos.

São diferentes porque no caminho ninguém perguntou em quanto tempo eu havia feito o trecho do dia, não havia cobrança alguma, eu podia parar onde quisesse e pelo tempo que quisesse para tirar as botas, meias e descansar, seja num café ou de frente para uma paisagem bonita sob a sombra de uma árvore, eu podia começar o dia a qualquer hora e sem saber quantos quilômetros ia fazer ou em que cidade ia parar, os resultados esperados eram mentais e não do relógio. Os últimos metros de uma maratona ou Ironman são revigorantes, a chegada de uma maratona ou Ironman é gloriosa e comemorada com alívio. Os últimos dias do caminho são melancólicos e a chegada em Santiago é triste, pois significa que acabou! Toda paisagem, natureza, silêncio, comidas que aproveitei e curti, tudo o que vivi e as pessoas que conheci. Aquela era a hora de abrir mão de tudo, deixar aqueles dias no passado e recordar que o que foi vivido, foi intenso e deixou flashes na memória. É essa a hora das despedidas, foi nessa hora impiedosa que entendi que chegar não era o mais importante, mas sim como eu havia aproveitado meu caminho, assim como na vida. Experiências boas, como essa, me fazem acordar para aproveitar mais a vida. É uma relação e comparação intensa sobre a vida real e como a conduzimos.

Foi assim que pude comparar, em poucas palavras, esses dois eventos tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidos.

O caminho de Santiago. (1)

É uma experiência de vida! Se me pedissem para descrever em pouquíssimas palavras como foi fazer o caminho de Santiago de Compostela com meu pai, essa seria minha resposta. Uma experiência de vida! E acredito que seria a resposta de muitos que conheci durante essa jornada.

As inúmeras rotas que existem na Europa e levam até Santiago de Compostela nunca são iguais, digo isso porque depende da estação do ano que você for, depende da cidade que você escolhe para passar o fim de tarde e a noite, do albergue ou hostal que você escolhe para dormir, do restaurante que você escolhe para jantar, de como você almoça, das pessoas que você conhece etc… Todas essas e muitas outras variáveis fazem o caminho ser visto e entendido de forma diferente aos olhos de cada um. E justamente por ter tantas possibilidades vou deixar apenas minha opinião, pois provavelmente até a do meu pai, que me acompanhou a cada dia, seja diferente.

Começamos dia 25/9/2012, na baixa temporada, não precisávamos ter pressa para encontrar um quarto nas cidades e a temperatura seria amena. Estávamos bem equipados e com pouca bagagem, ansiosos, mas confiantes de que havíamos nos preparado bem apesar de nunca termos caminhado por dias consecutivos.

Nos primeiros dias sentia que o cansaço físico se acumulava, mas depois da segunda semana parece que o corpo já havia se adaptado às caminhadas diárias e só bastava manter os mesmos cuidados com os pés e seguir.

Meu pai ficou resfriado na 1ª semana por termos pego muito frio no primeiro dia, ao mesmo tempo sofreu com bolhas dia após dia até o fim da 3ª semana, e mesmo assim manteve o bom humor, se encantando com a paisagem, conhecendo pessoas e se divertindo. Na única bolha que eu tive, só no nono dia de caminhada, quando achava que já estava adaptado e ficaria livre delas, um mau humor me abateu e passei a admirar mais meu pai por ter continuado a curtir tudo à sua volta enquanto eu me importava com a bolha e esquecia todo o resto.

Hoje era de salame e queijo de ovelha. Dá pra imaginar o silêncio do lugar? O único barulho vinha das folhas das árvores quando a brisa soprava.

Almoçávamos um sanduíche. Em qualquer cidade pequena tinha um mercadinho simples que, dentre outras coisas, vendia pão e frios, e assim variávamos nosso almoço, queijos de ovelha, vaca e cabra, presunto crú, uma infinidade de salames, que se podia comprar fatiado em embalagens industrializadas ou fatiado na hora. Compotas de pimentão, atum ou aliche. Gastávamos de 2 a 3 Euros cada. Preparávamos o lanche na hora da fome em alguma paisagem bonita, ou em qualquer banco de praça. Bastava ter na bagagem talheres de plástico. Era fácil comprar frutas, mas nas primeiras semanas, pegávamos punhados e mais punhados de amoras, ainda resquício do verão, diariamente na beira do caminho. Vez ou outra alguns figos nas enormes figueiras.

No jantar comíamos muito bem nos restaurantes, o chamado “menu do peregrino”. Formado pelo prato de entrada, o prato principal e a sobremesa. Haviam 3 ou 4 opções para cada prato. Uma garrafa de vinho ou água e o pão estavam inclusos e se pagava por tudo isso entre 8 e 11 Euros por pessoa. Comemos realmente muito bem e gastamos pouco, já que dentre as opções de prato principal sempre havia peixe, carne de vaca ou porco, na maioria das vezes tanto eu como meu pai escolhíamos bacalhau, truta, merluza ou linguado, pra variar um carneiro assado também era sempre bem servido. Outros peregrinos optavam por comprar comida no mercado e fazer algo mais simples na cozinha do albergue. Nesse caso gasta-se menos ainda.

Cada região da Espanha tem sua especialidade, ou ao menos um jeito diferente de fazer determinado prato, no início, perto de Pamplona, o bacalhau era em pedaços pequenos no molho, mais pra frente já vinha em filé na chapa ou frito. As trutas também eram bem populares no início, e já perto de Santiago o polvo era imbatível. Mesmo relativamente longe do mar os peixes são muito baratos. O vinho era sempre o da região e nunca deixaram a desejar.

Campo aberto e pueblo mais a frente.

O percurso não é muito técnico e um tênis de trilha impermeável é suficiente. As botas são maioria, mas se vê pessoas com todo tipo de calçado e no dia de subida mais difícil, onde a mão do homem não havia mexido muito no terreno e sob chuva constante, meu pai estava de meias, saco plástico e sandália nos pés, nessa mesma ordem, pois não conseguia calçar as botas por causa das bolhas. Ele caminhou de sandália por 4 dias consecutivos e me lembro que começava o dia cantando, era sinal de que estava melhorando, mas ainda não conseguia calçar as botas.

Vi muitas pessoas de idade, inclusive mais que meu pai que tem 65. Por mais que caminhar quase 800km num mês de férias pareça muito, esse trajeto é compatível com qualquer pessoa saudável e gostar de caminhar é o único requisito, as outras dificuldades são superadas e o caminho se torna uma experiência incrível para todos. Pessoas do mundo todo, mulheres sozinhas, sem medo e sem motivo para tê-los, casais de jovens e velhos, pessoas magras, gordas e muito gordas, pessoas com botas, outras de tênis, sandália e até o minimalista five fingers. Mochilas grandes e pequenas, ergonômicas e modernas ou da idade da pedra.

Os aprendizados foram muitos, estava com meu pai, estava comigo, comparava nossas reações frente às adversidades, ouvia e me inspirava com histórias do meu pai, e as de pessoas desconhecidas e sei que a minha história também inspirou alguém.

Não tive nenhuma revelação divina ou ideia mirabolante, experiências boas, como essa, me fazem acordar para aproveitar mais a vida. É uma relação e comparação intensa sobre a vida real e como a conduzimos. Posso comparar o esporte e até filmes com a vida real, mas o caminho dura muitos dias, sua mente se abre, os exemplos são diários e você expande seus horizontes. Por mais que cada um enxergue de forma diferente, acredito que esse possa ser o ponto em comum para todos.

Catedral em Santiago de Compostela, fim da jornada!

Para escrever este texto muitas imagens e lembranças me passaram pela cabeça, e estou certo de que não consegui transmitir ou traduzir todas elas em palavras. O caminho é uma experiência de vida para todos, mas diferente para cada um. Quando eu tiver um filho, gostaria de voltar lá e proporcionar isso a ele, como meu pai fez comigo.