O caminho de Santiago (2)

O caminho X ironman.

Por ser professor de Educação física e gostar de provas longas, era impossível não relacionar algumas características do caminho de Santiago com provas como a maratona ou Ironman, que por vezes eram bem parecidos, mas por outro lado, em outros aspectos eles eram exatamente o oposto.

Meu objetivo principal quando treino pessoas comuns para um Ironman, é fazê-los enxergar o que poderia ser apenas uma prova se transformar numa experiência de vida. E por ter vivido o caminho dessa forma, resolvi compará-los.

Eles são parecidos nos altos e baixos que o corpo e a mente enfrentam ao longo do trajeto, momentos em que você se pergunta porque está fazendo aquilo e momentos de felicidade a ponto de cantar como se estivesse no chuveiro. São parecidos quando se almeja um simples copo d’água, quando o sol ou o frio ou a chuva castigam e o percurso ainda é longo pela frente, quando bolhas e dores musculares que você nunca teve aparecem, e somem. São parecidos pela incógnita de não saber o que vai acontecer com seu corpo mais adiante ou nas próximas horas, porque por mais treinado que se esteja, em desafios tão longos as surpresas acontecem e só nos resta corrigir e remediar. Nos aprendizados para a vida, na superação que mostra como somos por dentro e como reagimos.

São diferentes porque no caminho ninguém perguntou em quanto tempo eu havia feito o trecho do dia, não havia cobrança alguma, eu podia parar onde quisesse e pelo tempo que quisesse para tirar as botas, meias e descansar, seja num café ou de frente para uma paisagem bonita sob a sombra de uma árvore, eu podia começar o dia a qualquer hora e sem saber quantos quilômetros ia fazer ou em que cidade ia parar, os resultados esperados eram mentais e não do relógio. Os últimos metros de uma maratona ou Ironman são revigorantes, a chegada de uma maratona ou Ironman é gloriosa e comemorada com alívio. Os últimos dias do caminho são melancólicos e a chegada em Santiago é triste, pois significa que acabou! Toda paisagem, natureza, silêncio, comidas que aproveitei e curti, tudo o que vivi e as pessoas que conheci. Aquela era a hora de abrir mão de tudo, deixar aqueles dias no passado e recordar que o que foi vivido, foi intenso e deixou flashes na memória. É essa a hora das despedidas, foi nessa hora impiedosa que entendi que chegar não era o mais importante, mas sim como eu havia aproveitado meu caminho, assim como na vida. Experiências boas, como essa, me fazem acordar para aproveitar mais a vida. É uma relação e comparação intensa sobre a vida real e como a conduzimos.

Foi assim que pude comparar, em poucas palavras, esses dois eventos tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidos.

2 ideias sobre “O caminho de Santiago (2)

  1. Enzo Parabéns pelo site e comentários. Cultivo este sonho de fazer o caminho ja ha alguns anos e creio que está chegando a hora. Pretendo faze lo em setembro, mas tenho algumas dúvidas: irei sozinha e gistaria de saber se o caminho caminho​ é seguro.

    • Célia, vi muitas mulheres caminhando sozinhas. Também desde o primeiro dia você vai conhecer algumas pessoas que farão o caminho praticamente com você. Se encontrarão nos cafés, nas cidades de cada noite e eventualmente caminhando. É muito legal, torço para que vá em breve.
      Abraço.

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