Patagonian International Marathon, 2º vídeo

Imagine o cenário para uma prova longa na natureza, a primavera chegando, as árvores ainda sem folhas e a grama amarelada como pedia o inverno, adicione o friozinho predominante da região para impulsionar melhor a corrida… visualizou? Pois bem, nesse cenário fui correr 63km, me sentia bem, estava bem treinado e confiante, bastava olhar pra frente e recarregar as baterias com o visual, foi o que pensei, mas para fazer 63km precisei muito mais do que isso.

No primeiro texto e vídeo, consegui contar uma parte da história, agora conto a outra, a mais difícil, claro que contar a história depois dela ter acontecido fica fácil, o difícil é lidar com tudo enquanto a ação acontece, mas não pense que foi uma novela mexicana ou que eu tenha virado mártir, já fiz provas menores com muito mais sofrimento e desconhecimento, mas agora é hora de contar essa história, que rolou num lugar lindo e numa distância que pra mim, não é fácil.

Como sempre digo, o início de qualquer prova dá a sensação de ser muito fácil, afinal está treinado, descansado e psicologicamente preparado para aquela distância, mesmo assim é bom ser cauteloso no início, levar em conta o tipo de terreno, clima, altitude, distância e quanto o ambiente é diferente daquele que você está acostumado. Eu, que só queria participar, tracei a estratégia de correr com os batimentos estáveis no “Limiar 1″, em poucas palavras, ritmo que consigo manter com facilidade por muitas horas, 155 batimentos por minuto (esse número varia de acordo com seu condicionamento) por outro lado, o ritmo que você pode impor varia de acordo com o ambiente, se estivesse no calor de Fortaleza estaria correndo a 10km/h, mas no frio da patagônia chilena, mais perto da Antártica do que de SP conseguia ficar perto de 12km/h com os mesmos 155, simples razão que faz os batimentos servirem de parâmetro muito mais fidedigno do que ritmo por km, no caso de provas velozes como essa. Assim o fiz, e tenho certeza que fiz bem, pois consegui manter o ritmo por mais de 45km, quando comecei a sentir o peso da prova, e já certo de que a falta da comida começava a cobrar a conta. A viagem de SP até o parque nacional Torres del Paine foi bem apertada, e por descuido meu, não fui atrás para conseguir umas batatas cozidas com sal, fiz todos os treinos longos com elas, mas não podia levar na bagagem e acabei esquecendo de me virar quando tive oportunidade. Tenho quase certeza que algumas batatas foram a razão de ter reduzido tanto o ritmo durante a corrida nesse dia.

Comecei a prova com 4 sachês de gel, e um punhado de sal na mochila, pensando em me virar com o que a organização colocasse nos postos de hidratação, vivendo e aprendendo, nos postos só havia água e bananas e o 2º gel foi o último que consegui tomar, não descia mais e ainda estava no km 25, a partir daí segui com meia banana de tempos em tempos. Sabia que estava longe do adequado e que em algum momento podia acabar o combustível, mas ainda corria confiante e com uma sensação muito boa, afinal, era isso que eu tinha e não podia sofrer por antecipação, passei a marca de 32km, metade da prova, me sentindo bem, a partir do km 45 o percurso virou um sobe e desce constante, tanto no percurso, quanto nas minhas sensações, e a falta de energia não me deixava subir bem, que é meu forte, em compensação conseguia correr nas descidas, o que me dava mais certeza de que a alimentação, ou melhor, a falta dela, havia tomado o papel principal na minha corrida. Tinha em mente a altimetria da prova e depois dos 52km sabia que era quase tudo descida e ainda conseguia correr bem, não tinha dores articulares, que mostravam que os músculos ainda eram resistentes, esses pensamentos me faziam bem, apesar da constante presença dos momentos de baixo astral, nas caminhadas.

O percurso nunca deixou de impressionar, a temperatura chegou na máxima de 15º, o vento esqueceu da corrida e a presença do sol convidou a ficar de camiseta curta. Conforme o tempo foi passando a força foi acabando numa velocidade bem mais rápida, o gel continuava no bolso, mas o estômago virava só de pensar nele, os últimos kms foram bem lentos e com a boca seca, os postos estavam próximos mas só tomava uns goles pra não pesar demais, e a sede voltava logo, mas mesmo nesse estado relembrava que já havia passado por momentos piores em outras corridas e isso me fazia sentir confiante de que eu estava bem preparado, e que um vacilo fez a prova ser um pouco mais difícil e longa do que deveria, ao mesmo tempo me ensinou, me fez ponderar, escolher alternativas e arcar com as escolhas, me fez pensar positivo, continuar e chegar, tive todos os temperos que qualquer prova longa te oferece, por isso gosto tanto delas e não paro por aqui. Rumo aos 100km!

Espero que goste do vídeo, e se ficou alguma dúvida ou pintou alguma curiosidade, me escreva.

Enzo Amato

2 ideias sobre “Patagonian International Marathon, 2º vídeo

  1. Parabéns pela prova e pelo blog, Enzo.
    Este ano vou fazer uma prova de aventura internacional, penso fazer a Vulcano Ultra Trail, já corri no asfalto em outros países, mas corridas de aventura só no Brasil, em especial o Xterra.
    E Rumo aos 100km !!!

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