Já volto!

Caro leitor, por um bom motivo vou atrasar na atualização deste blog, pois estou em lua de mel, mas assim que voltar os textos voltarão com força total explicando sobre a preparação para meus 100km, a preparação da turma que vai para o Ironman de Floripa e Fortaleza, e das provas internacionais em lugares legais e diferentes que pretendo fazer.

15/12 estou de volta!!! Abraço.

Enzo Amato

Ironman Ironmântico

Por Leonardo Coriteac

Fiz meu primeiro Ironman em 2012 em 12horas e 19 minutos. Fiz a prova de 2012 muito tranquilamente, curtindo todos os momentos, pois eu acreditava que nunca mais eu conseguiria fazer um Ironman lembrando de tantos detalhes da prova pois, naturalmente, meu próximo Iron seria dedicado à conhecer meu limite físico para a prova, ou seja, abaixar o tempo.

Quando fiz a inscrição para 2013 meu objetivo era terminar a prova com, no mínimo, 1 hora antes de 2012 e eu sabia que era perfeitamente possível pois eu estava muito bem treinado e 11 horas e 20 não me assustavam. No segundo semestre de 2012 voltei à estudar por uma necessidade profissional e as coisas começaram à não serem mais como antes, agora eu tinha a faculdade para dividir ainda mais meu tempo que já era dividido entre esposa e filho, trabalho, treino. Pensei comigo, “bom, agora esse é meu desafio! Fazer o Ironman em 1 hora a menos que ano passado e estudando”. Confesso que o que parece loucura pra mim pareceu motivador.

O ano de 2013 começou e com ele os treinos para a prova, tudo sob controle, natação, treinos de bike e corrida, tudo evoluindo conforme o esperado quando no final de fevereiro voltaram as aulas. A partir daí a equação começou a ficar desbalanceada porque trabalho + família + estudo = menos treino, o tempo que eu tinha para treinar eu já não tinha mais pois as atividades da faculdade estavam tomando um tempo enorme e eu não aceitava reduzir o tempo com minha esposa e meu filho, então só me restou reduzir o tempo dos treinos e foi quando eu comecei a ficar chateado, pois eu vi o tempo da minha prova indo por água abaixo e em um desses momentos de desânimo minha prova foi salva por minha esposa. Ela me disse assim:  - “abaixar o tempo só faz sentido pra você, para nós o que importa é que você termine a prova e fique feliz, você será sempre nosso Ironman”.

Essas palavras mágicas me tiraram imediatamente do desânimo e me trouxeram de volta todo aquele sentimento de desafio e superação que eu sempre tenho dentro de mim. Pensei comigo “agora esse é meu desafio, e já que não vou conseguir abaixar 1 hora do tempo então vou adicionar uma hora a ele”, ou seja, em esportes como o triathlon o atleta treina para melhorar sempre seu tempo, mas este ano eu estava determinado à piorar meu tempo.

Isso pode não fazer sentido pra quem está lendo agora, mas fez e ainda faz todo o sentido pra mim. Como eu disse em 2012 fiz uma prova tranquila e curtindo muito os detalhes dela, e aumentar em 1 hora meu tempo de 2012 significaria curtir ainda mais essa maravilhosa prova. E assim foi. Praticamente parei de treinar durante a semana e fazia apenas os treinos longos dos finais de semana. Os treinos que antes eram fortes e focados no relógio passaram a ser mais ritmados e focados em bater-papo, conhecer melhor aqueles atletas que também fariam a prova comigo e, quando possível, ajudá-los a realizar o grande objetivo de cruzarem a linha de chegada. Passei a não perder nenhuma oportunidade de parar pra ajudar um amigo quando o pneu dele furava, ou mesmo correr num ritmo bem menor daquele que eu estava acostumado para bater papo com os amigos e ajudá-los a superar as grandes distâncias de corrida que ainda haviam pela frente. Por conta do estudo não pude fazer o acompanhamento psicológico em grupo com nosso psicólogo Rafa Dutra, que no ano anterior havia me ajudado muito a completar a prova de 2012, com muitas lembranças da prova, mas do auto de sua sabedoria, ele soltou uma frase que me acompanhou por todo o treino que foi “O Léo está romântico” e eu usei esta frase pra me motivar o tempo todo nos treinos, pensava eu, “vou fazer um Ironmântico, com muito Ironmantismo”.

Lembro-me como se fosse hoje dos treinos longos de bike no rodoanel que, apesar do ambiente inóspito consegui curtir muito, ver paisagens que no ano anterior eu não havia visto, conversar muito durante as subidas exigentes e nas descidas, como uma criança, tirar a mão do guidão, abrir os braços e cantar “I believe I can fly”. Lembro-me que em um dos treinos na represa eu parei de nadar bem no meio dela e comecei à contemplar tudo aquilo, aquela quantidade enorme de água, aquela paisagem maravilhosa e pude perceber toda aquela natureza em seu esplendor. Foi quando nosso treinador, o grande Enzo Amato, chegou perto de mim com o caiaque e perguntou se eu estava bem e eu respondi que sim. Naquele momento percebendo que eu estava bem ele me disse “continue nadando que ainda falta muito pra chegar na ponte” (da via anchieta onde nadamos até ela e retornamos para a estrada velha de santos) e eu respondi “vou ficar mais um pouco aqui contemplando essa beleza que poucos tiveram oportunidade de ver e poucos terão do ponto onde estou agora” e fiquei lá por mais algum tempo, completamente imerso na água, apenas com a cabeça de fora, e percebendo minha pequenez em meio àquela imensidão ao meu redor.

O grande dia havia chegado, novamente eu estava lá, graças à Deus e com o apoio da minha amada esposa Bianca e meu eterno motivador, meu filho Davi lá estava eu pisando novamente na areia da praia de Jurerê em Florianópolis e rodeado de amigos os quais pude ajudar e ser ajudado a ali estar. Apesar de ser minha segunda vez a emoção era a mesma, aqueles momentos que antecedem a prova são mágicos e inesquecíveis e, aliados à meu compromisso de curtir ainda mais a prova, fizeram aquele momento ser singular para minha vida, principalmente porque à meu lado estavam amigos os quais eu devia à eles minha presença ali naquele lugar maravilhoso e que também estavam ali por influência minha.

Resumindo minha história com o esporte, nunca pratiquei atividades físicas na minha vida quando, há 6 anos, quando minha esposa e eu decidimos ter um filho.

Eu era fumante e pesava 26kg à mais do que peso hoje e comecei a correr para me auxiliar na perda de peso, mas sem nenhuma pretensão de praticar esportes.

Os amigos Isaac Razzante e Luciano Capas me incentivaram a comprar uma bike e ir pedalar na estrada velha num domingo de muito sol e uma paisagem exuberante que me fizeram fã incondicional daquele lugar.

O meu primeiro contato com o triathlon foi lá na estrada velha quando vi uma placa escrita “Simulado de Triathlon” do Júlio Vicuna, uma fera do triathlon brasileiro que com seu simulado incentiva muitos à experimentar o esporte e, consequentemente, apaixonar-se por ele. Bem, voltando à prova, novamente quando o Astro Rei apareceu por trás da montanha, Imponente e Esplendoroso, ouvimos a sirene que deu início à um dia maravilhoso de esporte e energias boas. Dei mais um abraço nos amigos, desejei boa sorte à todos e entramos na água. Daquele momento em diante eramos cada um por si, cada um fazendo sua prova e fazendo o que havia treinado, mas em momento algum nos esquecemos dos amigos que ali estavam e torcemos, uns pelos outros, para que tudo desse certo pra todos. A exemplo do ano anterior ao chegar na primeira bóia, 950 metros mar adentro parei por uns instantes para contemplar a vista da praia, olhei para o sol e agradeci novamente à Deus pela oportunidade de estar ali mais um ano celebrando a vida e o amor ao esporte.

Lembro-me como se fosse hoje da quantidade impressionante de águas vivas passando em minha mão e batendo em meu rosto, elas pareciam pequenas gelatinas passando por entre os dedos, não queimavam a pele mas a sensação era engraçada. Terminei a primeira volta, cumprimentei os amigos que encontrei na areia e entrei no mar novamente para mais uma volta de quase 1500 metros de natação, dessa vez despedindo-me da natação do Iron 2013.

Costumo dizer para os amigos que vão fazer a prova para aproveitarem o percurso, pois tanto na natação quanto na bike são 2 voltas, a primeira volta é para dizer olá ao percurso daquele ano e a segunda já é para se despedir, pois outra oportunidade de estar ali novamente só dali há um ano, isso se você for um dos sortudos que conseguirem fazer a inscrição. Digo sortudo porque são 2.200 vagas que se esgotam em poucos minutos (em 2012 foram apenas 14).

Ao sair da segunda volta da natação, quando pisei na areia e olhei meu relógio pensei comigo, “perfeito, piorei 6 minutos meu tempo do ano passado”.

Encontrei o Enzo e o Tatá (Otávio Lazzuri) na saída da natação e parei para conversar um pouco e é muito engraçado perceber a estranheza das pessoas que se acostumaram à ver atletas passando por elas correndo feito loucos em direção à tenda da transição e, quando um atleta sai da água e pára pra bater um papo com seu técnico e um amigo todos, ficam agitados gritando, “corre…”, “é por ali…” , indicando o caminho da tenda da transição e eu antes de ir caminhando para a transição me voltei em direção ao mar e disse mentalmente um “tchau, nos vemos ano que vem de novo”.

Fui para a transição caminhando tranquilamente, entre a areia e a transição devem ter uns 200 metros que este ano fiz questão de percorrer caminhando e notando todos os detalhes daquele trajeto, quando encontro com o André do MidiaSport, empresa que estava ali para filmar nosso time, e também nos incentivar, como várias vezes aconteceu durante os treinos em 2012 e este ano. Pessoal do Mídia, um abraço especial à vocês que passam por várias dificuldades conosco para capturar imagens maravilhosas que eternizam nossos treinos e nossa prova. E o André disse “corre Léo” no que eu prontamente repondi “não André, vou curtir meu momento” e ali fui eu, caminhando tranquilamente com meu wetsuit pendurado no braço e contemplando ao meu redor, quando encontrei o Alê, um verdadeiro guerreiro que, por um capricho do destino, impediu ele de estar entre os que largaram naquela manhã de domingo para fazer seu Iron.

Cumprimentei-o e continuei com minha caminhada e encontrei o Rafa Dutra, talvez analisando meu comportamento, como é típico de um psicólogo, e talvez pensando, “o que este cara está fazendo caminhando aqui?” onde é suposto que se passe correndo e me disse: “você está romântico mesmo hein Léo”, dei-lhe um grande sorriso e continuei minha caminhada quando entrei na tenda da transição. Peguei minhas coisas e saí para pedalar, observar as pessoas logo na saída da transição é muito bom, dá pra sentir a energia que eles passam a muitos metros, cada um está ali para torcer por uma pessoa diferente, às vezes pra uma equipe de algumas pessoas, mas dá pra perceber que eles também torcem por você, um desconhecido que passa por suas frentes e desaparece em poucos segundos com sua bike, mas mesmo assim eles fazem questão de te aplaudir, dizer palavras de incentivo e muitos até gritam seu nome quando conseguem vê-lo gravado junto ao número de peito. A primeira volta do percurso da bike foi ótima, temperatura agradável e quase sem vento o que me ajudou a curtir muito o percurso. O que falar da Avenida Beira Mar então, um pedacinho do paraíso que Deus escolheu à dedo e presenteou os Catarinenses talvez dizendo-lhes: “tomem, presente pra vocês, cuidem bem!”

Depois de passar pelo retorno, encontrar alguns amigos e trocar algumas palavras, comecei a segunda volta de bike, os últimos 90Km de ciclismo, hora de dizer tchau pra bike do Iron 2013, mas aí foi que a despedida ficou mais longa, um vento forte que parecia vir de todas as direções fez-se presente para lembrar à todos aqueles atletas que ali estavam que, apesar de todos os treinos, todo o esforço, horas de sono perdido e muitas dores, quem manda na prova é a natureza. É ela, majestosa e absoluta, quem dita as regras e diz se você terá um dia perfeito ou terá uma pitada à mais de dificuldade nessa prova que, já é dura por si só.

Pra quem não sabe o Ironman é uma prova de triathlon composta por 3,8 km de natação, 180 km de ciclismo e 42,2 km de corrida e, acreditem, o dia da prova é dia de festejar, difícil mesmo são os treinos, como o Rafa Dutra diz: “Difícil não é chegar na linha de chegada, difícil mesmo é chegar na linha de largada”. Significa que se você chegou até ali, naquele dia, naquela areia, com o peito encostado naquela faixa que só é erguida quando a sirene toca, de frente para aquele mar lindo e só de olho naquela boia, que parece tão distante, você já é um Ironman, passar pelo pórtico de chegada será apenas mais uma etapa à ser cumprida.

Bom, voltando ao ciclismo, a segunda volta foi desafiadora por conta do vento forte e, no sul da ilha fiz uma parada para ir ao banheiro, e neste ponto encontrei um colega que conheci nos cursos de árbitro de triathlon em São Paulo. Saímos dali juntos e como eu estava “curtindo a prova” e ele estava em uma situação parecida com a minha, também não tinha conseguido treinar o suficiente para melhorar o tempo e estava lá para completar e curtir a prova, saímos do sul em direção ao norte da ilha juntos e batendo papo. Nosso papo estava muito interessante quando fomos abordados por uma árbitra de moto que nos alertou sobre vácuo lateral, que é quando duas bikes estão andando uma ao lado da outra com uma distância menor à 3 metros. Ela foi embora e nós abrimos uma distância maior lateralmente um do outro para ficarmos dentro da regra e continuamos nossa troca de experiência quando a mesma árbitra nos interceptou novamente e pediu-nos para descer das bikes, pois ela iria punir-nos com 10 minutos no penalty box, tentamos argumentar com ela que estávamos a mais de 3 metros laterais um do outro, nos identificamos como árbitros de São Paulo e, nesta condição conhecedores das regras, argumentamos também que não existe vácuo numa subida, e foi onde ela nos parou mas, não teve jeito, fomos ambos punidos com 10 minutos no penalty box.

O penalty box é um espaço reservado onde ficamos parados por 10 minutos para cumprir essa punição após terminado o percurso do ciclismo. Se por um lado foi injusto, pois estávamos dentro do limite permitido, por outro lado foi muito engraçado porque dois árbitros nível internacional da ITU (International Triathlon Union), órgão equivalente à FIFA para o futebol fomos punidos por não seguir as regras, é mais ou menos como um guarda de trânsito ser multado por estacionar em lugar proibido, rs. Depois deste acontecido inusitado, despedi-me do Diogo e fui em frente para terminar meu ciclismo. Fiquei meus 10 minutos no penalty box e entrei para a transição para pegar minha sacola e, finalmente, começar a maratona, mas antes de sair pra correr fiz uma ligação para minha esposa que estava no hotel com meu filho que, no dia anterior havia tido uma dor de ouvido muito forte e nos fez fazer um tour pelos hospitais e farmácias do norte de Floripa.

Peguei o celular que eu havia deixado previamente na sacola da corrida e, com muita calma me sentei, estiquei as pernas e comecei minha ligação, outros atletas passavam por ali desesperados para fazer uma transição rápida e viam aquele cara ali, sentado, com as pernas esticadas falando ao celular como se estivesse de férias na praia e, de fato era isso mesmo, eu estava de férias na praia de Jurerê e curtindo um Ironman. Boas notícias, meu filho havia melhorado e não havia tido febre durante todo o dia, ótimo! Agora eu só precisava correr aproximadamente 13 km pra encontrá-los e dar-lhes um abraço gigante.

O percurso da maratona do Iron passa bem em frente ao hotel que sempre nos hospedamos então essa é a minha primeira meta no Iron antes da linha de chegada, chegar no hotel para o abraço da família.

Entre as praias de Jurerê e Canasvieiras está um morro que deve ser vencido por aqueles que querem cruzar a linha de chegada e, quando eu estava subindo encontrei o amigo José Renato Ferreira, paramos uns instantes para um papo e ele me disse que estava se sentindo bem na corrida, o que me deixou feliz, pois era mais um amigo que iria terminar a prova. No alto do morro que divide a praia de Jurerê e Canasvieiras está uma das vistas mais lindas que eu já vi na minha vida, aquela vista deveria ser tombada como patrimônio da humanidade e, novamente, parei neste ponto para observar a vista e o pôr do sol que estava quase acontecendo. Embasbacado com aquele espetáculo da natureza, eis que ouço uma pergunta “gostou da vista do meu quintal?” quando olho para o lado, há poucos metros de mim estava um rapaz de aproximadamente uns 35 anos, sentado numa cadeira de praia tomando uma cerveja e duas mulheres ao seu lado aproveitando para curtir a prova, vendo os atletas passando e aquela vista espetacular.

Cheguei mais perto deles e ficamos alguns minutos falando sobre o quanto eles eram afortunados por terem, todos os dias, um pôr-do-sol esplendoroso como aquele e, ainda melhor, saber que amanhã naquele mesmo horário o espetáculo estaria lá novamente, gratuito, pra quem quisesse ver. Nisso passa um atleta por nós que já estava voltando para completar seus primeiros 21km de corrida, olha pra mim e diz: “vamos! vamos! você se inscreveu na prova pra ficar conversando?” E eu, sem pensar disse à ele “olha só o que você está perdendo!” mas cada um está lá por seus motivos pessoais e, sim, eu estava lá pra aproveitar meu dia com tudo de melhor que ele pudesse me oferecer e isso incluía ficar parado por 5 minutos batendo papo e olhando o pôr-do-sol.

Pronto, hora de ir ao encontro dos meus amores, faltava bem pouco agora, apenas uns 4 km pro beijo da minha esposa e o abraço do meu pitico. Quando entrei na Rua Madre Vilac, por onde passa a corrida, rua do hotel, encontrei os amigos Luciano Capas e Isaac Razzante, ambos me pareciam muito bem, perguntei a eles como estavam se sentindo e eles disseram que estavam bem, vê-los bem na corrida me deixou feliz, pensei comigo “ótimo, mais dois amigos pelos quais eu estava torcendo e que irão completar a prova”,e apertei o passo pra chegar logo nos meus amores.

Encontrar uma esposa que nem se incomoda de abraçar um cara todo suado e meu pequeno e grande inspirador e motivador que também corre à meu encontro e pula no meu colo dizendo: “papai, papai, vamos correr no Ironman?”. Coitadinho, ele já estava ali há um tempão esperando o papai só pra poder “correr no Ironman”. Quando cheguei no hotel foram muitos abraços e beijos e fui correr com as crianças, o Davi, o Luquinhas e a Lelê me acompanharam por uns 400 metros até o tapete de controle de tempo que estava logo na outra rua e marcava o começo do retorno para completar a primeira volta. Esses 400 metros de corrida com as crianças fizeram minha prova valer a pena, só de ver a alegria das crianças em correr aquele trecho, e ainda mais do Davi em estar correndo com o papai no Ironman foi tão bom que eu não queria mais deixá-los e voltar pra prova, estava realmente muito bom ali. Fui até o banheiro do hotel lavar o rosto e depois de mais um monte de beijos voltei para a prova.

Eu me sentia muito bem e meu ritmo de corrida estava bem forte, quando entrei na Avenida Búzios para completar a meia maratona encontrei o Enzo e o Tatá novamente, e percebi que o Enzo ficou contente em me ver correndo forte, trocamos umas palavras e segui na prova. Peguei a primeira pulseira de cor verde que indicava que eu já havia completado metade da corrida e pensei, pronto, agora são só mais 21km pra encontrar minha família e cruzar a linha de chegada, muito feliz e satisfeito com minha prova “curtida”.

Eu estava dentro do tempo que eu havia previsto, iria terminar a prova entre 13 horas e 20 minutos e 13 e 30, perfeito !

No km 26 encontrei o amigo Eduardo Anjos, que já havia pego a segunda pulseira de cor laranja, isso indicava que ele já estava correndo seus últimos 10km, mais uma vez a satisfação de ver outro amigo completando a prova. Quase que no mesmo lugar encontrei novamente os amigos Isaac e Luciano, ambos estavam correndo juntos e quando os alcancei pensei, vou conversar um pouco com eles, ver se está tudo ok e vou seguir na minha prova, pois imaginei que eles também estivessem muito na minha frente quando percebi que eles também só estavam com a pulseira verde e perguntei se eles estavam na mesma volta que eu, e eles responderam que sim, o Isaac sentiu dores nos joelhos e teve que caminhar por uns instantes, neste momento tomei a única decisão que eu poderia, eu disse: “vamos terminar a prova juntos!”

Eles insistiram para eu continuar no meu ritmo, pois eu estava muito bem, mas definitivamente, minha prova agora era ajudar dois amigos a cruzarem a linha de chegada. Andamos, corremos e conversamos muito, falamos sobre nossas provas, sobre o vento, sobre as pessoas que ali estavam, se nossas famílias já haviam chegado para acompanhar-nos ao cruzar a linha de chegada e celebrar mais essa vitória que, em momento nenhum é individual, é um esforço enorme familiar.

Ficar longe da família durante tantas horas nos finais de semana devido aos treinos é mais fácil pra nós atletas que, apesar do esforço físico estamos sempre com várias pessoas agora, nossas famílias estão sozinhas em casa aguardando ansiosa nossa chegada e,quando chegamos cansados de um treino de 180 km de bike, onde acordamos às 5 da manhã, pedalamos por 6 a 7 horas e chegamos em casa cansados aí sim temos que ser Ironman e dedicar-nos de corpo e alma (nessa hora é praticamente só alma porque do corpo sobrou pouco), à nossa família.

Ao chegarmos próximo ao local onde pegaríamos a segunda pulseira encontrei nossas famílias e parei para conversar um pouco e avisá-los que faltavam apenas 10km pra terminarmos a prova e que, no máximo dali a 1 hora, 1 hora e pouco estaríamos ali.

Os últimos 10 km foram desafiadores, porque o frio já estava presente e, apesar de estamos correndo não era suficiente para esquentar nossos corpos, mas vamos lá, falta pouco. Sempre que entro na Avenida Búzios e vejo o cruzeiro iluminado do hotel Campanário para os últimos 3 km da maratona me lembro do amigo e Ironman Eduardo Coimbra que diz “agora só Deus me pára!” e a emoção começa a tomar conta do corpo.

O frio, como num passe de mágica passa e dá lugar à um emaranhado de sentimentos que nenhum Ironman consegue descrever mas que eu, por enquanto, só senti por 3 vezes na vida, duas ao cruzar aquela linha com minha família e outra quando vi pela primeira vez o rostinho do maior presente que minha amada esposa me deu, meu filho, ao ter acabado de nascer (estou arrepiado ao escrever estas linhas).

Vencemos os últimos kms da corrida, chegamos ao corredor de pessoas que esperam por seus atletas, para juntos, cruzarem o pórtico de chegada e, ao ver minha esposa e meu filho ali me esperando, chegou meu momento de êxtase total, demos as mão e juntos cruzamos, em 14 horas e 15 minutos o pórtico de chegada para mais uma vez ouvir do locutor dizer, Leonardo, parabéns, você é um Ironman!

Agradeço à minha família pelo apoio e pela paciência, aos amigos pela motivação e por terem compartilhado comigo horas e horas de treino e bom papo e ao coach Enzo por ter me colocado na linha de chegada mais uma vez, e vamos lá que o Ironman 2014 está chegando …

O limite só existe até o próximo desafio!

O Leão da Toscana (livro)

O Leão da Toscana – Aili e Andres McConnon

Editora Zahar

Biografia de Gino Bartali.

Um dos livros mais viciantes que já li, que adiciona fatos da época e conta a história pessoal de Gino antes, durante e pós guerra, na Itália de Mussolini. Conta como a política fascista interferiu no esporte e na vida de quem era contra o regime ou perseguido por ele, como Gino ajudou a transportar documentos falsos pelo país durante a 2ª guerra, quando já era famoso por sua conquista do Tour de France de 1938.

Como a bicicleta na Itália se tornou parte da vida das pessoas no pós guerra sem estradas ou transporte público, e que em 1947 haviam 3,5 milhões de bicicletas rodando e apenas 184 mil carros já que um compacto custava 11x mais o que custa hoje. Conta que bem antes disso, o Tour de France havia sido criado para vender mais jornais, e que em 1948, 38% da população francesa saiu às ruas para assistir ao Tour. (algo que nenhuma Copa ou olimpíada vai alcançar)

Enfim, é um livro repleto de fatos curiosos e históricos dentro de uma emocionante história de vida, que também inclui o esporte.

Sou fã de livros que contam histórias reais, particularmente deste, porque foi na época que meu avô viveu e que meu pai passou a infância antes de imigrarem para o Brasil.

Recomendo a todo fã de ciclismo ou a quem goste de uma boa história.

Enzo Amato

O MEU IRONMAN 2013!!!

Sentido, vivido e escrito por Eduardo Giovannetti Pereira dos Anjos

Inesquecível e comovente…

Olá pessoal que lê essa crônica escrita especialmente pro Blog do Amato.

Vou tentar descrever aqui com o máximo de detalhes minha prova no Ironman Brasil 2013.

Prova que será pra sempre inesquecível por ter sido o meu PRIMEIRO Ironman. O eterno primeiro Ironman, que nunca mais haverá outro. A mais espetacular prova esportiva que tive o prazer de participar. Uma prova que começara muitos anos antes, tamanha a dedicação para ela. Estou muito feliz em entrar para esse seleto grupo de seres humanos a encararem um desafio desse tamanho.

Para quem não me conhece, me considero atleta desde os meus 7 anos de idade, quando comecei nas competições. Pratiquei natação, judô, voleibol, handebol e triatlo, esporte que me dedico desde 2009. Com o triatlo, retomei os treinos de natação, fui atrás de uma bike de corrida e intensifiquei os treinos na academia, junto com a corrida, que nunca deixei de praticar. De short triatlo em short triatlo, ouvindo as histórias e sendo “pilhado” pelo Irio e pelo Eloi na academia, entendi que era a hora de encarar provas mais longas que me motivariam a conhecer novas sensações.

Em 2012, treinei para disputar o Long Distance de Pirassununga, na distância Meio Ironman (1.9km/ 90km/ 21.1km). Tinha um receio grande, principalmente na etapa de corrida, pois 1 ano antes havia sentido e descoberto uma lesão degenerativa na cartilagem do quadril (labrum acetabular), oriunda dos 17 anos ininterruptos de voleibol. “Descobri” essa lesão ao participar da Meia Maratona de Florianópolis em junho de 2011, logo na primeira meia maratona que decidi participar. Senti uma dor muito forte com 17km de prova e terminei andando essa meia maratona.

O medo era grande! Fui atrás de especialistas (ortopedista, fisioterapeuta) e de métodos de reforço e recuperação sem a necessidade de cirurgia (yoga, pilates, musculação) para que eu conseguisse um diagnóstico animador e uma sobrevida no esporte. Por orientação de meu ortopedista, passei a tomar diariamente remédios homeopáticos que auxiliam no fortalecimento das cartilagens. Fiz 3 ressonâncias magnéticas em 1 ano e meio para acompanhar a lesão e, para minha alegria, em janeiro desse ano eu recebi o sinal verde de meu médico para prosseguir na busca do meu sonho. Era uma lesão controlada, sem volta, mas que naquela altura não avançava.

O desejo de participar de um Ironman ganhou mais força ainda e, em 2012, fui assistir à prova para acompanhar meu amigo Léo Coriteac. Junto com outros amigos, embarcamos para presenciar o tão famoso “dia mágico” em Floripa. No final de maio de 2012, lá estava eu novamente em Floripa, pra assistir a prova. A largada, como todos sabem, é emocionante, de fazer chorar mesmo quem tenha coração de gelo…No decorrer do dia, vendo toda aquela atividade esportiva e, certo que o pessoal do Enzo estava bem, decidi correr a 1ª volta de 21km da maratona, acompanhando o Léo. Isso sem treinar pra Meia Maratona e muito menos sem me alimentar direito ao longo do dia… mas eu precisava fazer aquilo…eu precisava pôr um ponto final na minha dúvida se seria capaz ou não de correr mais que 20km. E isso tudo, menos de 1 ano depois de descobrir a lesão.

Corri os 21km mais loucos da minha (ainda) curta experiência em provas longas. Fui pelo meio dos carros, sem a proteção dos cones, tinha que explicar a toda hora para os árbitros do Iron que não estava acompanhando ninguém, só queria conhecer o percurso pois estaria ali no ano seguinte, com um nº de peito. Encarei as subidas do caminho pra Canasvieiras e na volta em Jurerê Internacional, nada doeu! Pronto, sentia-me pronto pra inscrição uma semana depois! Sim, porque é preciso preparar-se para a inscrição também. Bom, como nosso amigo Rafa Dutra sempre diz, a preparação para um Ironman começa um ano antes, no momento da inscrição. Reservei sala de reunião e tudo no escritório só para ter a certeza de que nada me atrapalharia às 11h do dia 01/06/12. Mas o computador dessa sala estava quebrado!!! Corri de volta pra minha mesa e, tenso, fiquei esperando o horário. Meus amigos Luciano Capas, Isaac Razzante, José Renato Ferreira, Léo Coriteac (novamente) e eu ficamos muito felizes quando garantimos a inscrição, já que ela evaporaria em menos de 20 minutos. No final deu tudo certo e estávamos dentro! O IMBR já tinha começado…

Bom, passada a euforia de estar dentro da prova, era hora de pôr os pés no chão e começar a traçar o planejamento para o dia 26/05/13. Isso incluiria, ao menos, participar do Long Distance de Pirassununga, já comentado aqui, em que passei a treinar por conta própria, ainda sem a supervisão direta do Enzo. Para o Iron, eu tinha certeza que confiaria minha preparação a ele, mas quis experimentar sensações individuais para o Long Distance. Para essa prova, treinamos muito sob as condições de calor, muita umidade, tudo para tentar reproduzir as condições encontradas em Pirassununga. Porém, qual não foi a surpresa quando vimos na previsão do tempo que seria um fim de semana de muita chuva?? De fato, choveu muito o dia inteiro. A prova correu bem até a etapa de ciclismo, saí da água com 35min, fiz os 90km de bike em 2h59, totalmente dentro do planejado para mim. Já eram transcorridas 3h43 de prova e “só” faltavam os 21km. Quando coloquei os pés no chão, vi que seriam duros. Logo ao começar a correr, minhas pernas ameaçaram sentir cãibras. Logo no 1º km já não estava confortável. Dali pra frente foi uma tortura. Andei a maior parte do tempo, sofri muito com dores e terminei a prova com 6h17, sendo 2h33 nos 21km…

Aprendi que não se força na prova se não se forçou no treino e, principalmente, o corpo precisa de calorias (MUITAS) em provas com mais de 90 min de duração.

Já em janeiro de 2013, começamos oficialmente a preparação sob os cuidados do Enzo. De treino em treino, todos os finais de semana nesse período, fomos ficando calejados, confiantes e preparados para o Ironman. No meu caso, os medos e fantasmas, tão falados durante nossos encontros semanais com o Rafa, voltaram a surgir. Principalmente após as fortes dores que senti nos treinos longos de corrida (com mais de 28km). Percebi que essas dores vinham após treinos longos de bike no dia anterior. Decidi seguir o conselho do Charles Dellanoce Pereira, meu bike fitter, mas antes de tudo meu amigo e um dos meus maiores conselheiros para Ironman. Ele mesmo triatleta, com 4 participações em Floripa. Procurei uma clínica de fisioterapia que faz palmilhas esportivas e fiz um par para colocar nas minhas sapatilhas. Pronto!! O problema das dores na corrida se foi! Estava pronto pro Iron!!

As semanas prévias da prova foram tranquilas para mim. Não sou um cara ansioso e com as coisas “pegando fogo” no trabalho, mal tinha tempo de ficar imaginando coisas e coisas do Iron. E o Rafa e o Enzo sempre por perto para nos frear em caso de medo e para nos orientar em caso de dúvidas.

De férias, conseguimos chegar a Floripa na quarta-feira, dia 22/05. A ideia era estarmos prontos para o treino da quinta-feira, o famoso treino de natação. Chegamos antes Léo, Isaac e eu. Fizemos o treino e a confiança só aumentou, embora a correnteza estivesse tão forte do sul pro norte que fez muita gente sair em frente ao P12, 600m longe da largada (né Isaac e Leo?)…haha. Durante os dias em Floripa o clima era tranquilo. O hotel ainda vazio ia se enchendo com a chegada de outros atletas e familiares. As nossas famílias também foram chegando entre quinta, sexta e, no sábado, o movimento já era grande. Pronto! A atmosfera estava definida! Tudo fazia lembrar o Ironman. O hotel, as ruas, a Expo respiravam a prova. Na sexta ainda fomos ao congresso técnico e, à noite ao jantar de massas. Lá tivemos a oportunidade de tirarmos foto com uma lenda viva das distâncias Ironman: Mark Allen, 6 vezes vencedor da prova em Big Island!!! Simpático e muito paciente, tamanha era a quantidade de pessoas querendo um momento ao lado dele.

A véspera foi só descansar e comer muito para estocar o máximo de energia possível no corpo. Fiz a lição de casa muito bem feita (como quem estava comigo pôde perceber, tamanha quantidade de comida que consumi…haha). Era hora do encontro com o Rafa e com o Enzo, e depois bike check-in. O encontro em Floripa foi importante, para todos darem suas opiniões e pude dividir que, àquela altura, já me sentia um Ironman!! Não importasse o que ocorreria no domingo, ser um Ironman não é “somente” a prova em si, mas todo o comportamento e estilo de vida até aquele momento. Estilo que seguirá enraizado em mim pra sempre!

Parceiros de treino, de prova, treinador e psicólogo momentos antes da largada. Da esq. Zé, Enzo de vermelho, Luciano, Witney, Edu (eu), Piru, Gustavo, Isaac, Léo, Ale e Rafa.

No domingo, dia 26/05, acordei dentro do planejado. Dormira muito bem, estava descansado e confiante! Peguei as sacolas que não haviam sido deixadas no check-in e fomos pra Jurerê. O clima era fenomenal! Todos ali envolvidos e eu me sentia uma grande estrela, tamanha a quantidade de flashes e gritos chamando nossos nomes. Muito legal o envolvimento de nossos familiares e amigos!

Fomos para a largada e fizemos as últimas fotos com o pessoal do MídiaSport, sempre muito prestativos. Ao entrar no “curral” de largada, sabíamos que o GRANDE momento havia chegado!!! Eu esperava muito por esse momento, não pela ansiedade, mas para colocar em prova tudo o que treinei e também por ter a chance de curtir muito o dia! Um dia mágico, num lugar mágico!

Às 7:00 em ponto, o tiro de canhão e a largada foi dada!!

Calmamente comecei a encaixar meu ritmo na natação, procurando sempre me manter sozinho, sem tumulto. Consegui manter isso por toda a natação. Nada deu errado, graças a Deus! Cheguei à primeira boia com menos de 19min (um tempo muito bom pra mim!) e visualizei a referência para voltar à praia. Confesso que fiquei alguns segundos admirando a multidão na praia, iluminada pelo belo sol daquela manhã…Inesquecível!!! Essa primeira volta consistia de cerca de 2200m, com retorno na praia.

Na praia, consegui ver a Nathalia e minha sogra, gritando meu nome. Parei, dei as mãos a elas e captei mais energia ainda para prosseguir. Não consegui ver meus pais, porque passei correndo pela área em que eles estavam…Mas tudo bem, sabia que eles estavam ali torcendo! A 2ª volta da natação foi bem tranquila também, com os atletas mais espalhados. Cheguei na areia novamente com 1:15:32 e iniciei a T1 bem calmo, com o auxílio dos staffs retirei minha roupa de borracha e corri pelo caminho até a tenda, ouvindo gritos e reconhecendo várias pessoas na torcida. Vi ainda mais a complexidade da prova na T1…São realmente muito itens para pegar, guardar na sacola e sair pra etapa de ciclismo com a certeza de que nada necessário foi deixado pra trás. Levei 14 minutos nessa T1, mas parecia menos. O tempo passa voando lá dentro!

A bike começou com muita empolgação. Ouvir os gritos da galera na Av. Búzios é contagiante! Nem parece que vem pela frente só 180km…Afff…

Saí e logo avistei o Irio alguns metros à minha frente. Tinha conversado com ele na T1 e imaginava que estaríamos próximos. Como ele era o cara mais experiente do nosso grupo de treinos, pensei “vou com ele até onde eu aguentar…quando ele forçar, eu forço…quando ele for de boa, eu também faço isso”. Mas o homem pedala muito, sumiu e eu não consegui reagir. Pensei, “deixa quieto que eu tô bem”.

A 1ª volta de 90km fiz muito bem! Fiz com média de 30,9 km/h, o que pra mim é excelente. Aí no retorno, parei pra dar um beijinho na minha família, alongar um pouco o pescoço e as costas e conversar com o Luciano, já que estávamos juntos (nos avistamos um pouco antes de terminar a 1ª volta). Forneci umas cápsulas de sal para ele e continuamos.

A 2ª volta, lembrando o que o Tatá e o Enzo nos disseram, realmente é diferente. Muito calor, muito vento e o cansaço começa a pegar. Segundo o Du Coimbra, “é agora que a prova começa”. Sendo assim, resolvi ir mais devagar, me poupando quando tinha vento contrário para sair bem na maratona. Ficou ainda mais difícil quando passei pelo túnel a caminho do aeroporto e vi uma fumaceira danada dentro do túnel. Lá dentro estava muito difícil respirar, pessoas da organização pedindo para passarmos logo e tentar respirar o mínimo possível. Realmente era um produto que ardia muito as vias respiratórias. Na saída do túnel, vi que um mendigo estava sendo preso e “interrogado” por policiais militares. Aí ouvi que esse homem havia jogado fibra de carbono na circulação de ar do túnel…Tem gente realmente que não possui espírito nenhum de ajudar. Mas a organização agiu rápido, junto à PM e resolveu esse incidente muito bem.

Na etapa de ciclismo, fiz a parte principal de minha nutrição. Tudo deu certo!!! Parei inclusive no km 160 para comer um lanche, pois estava com muita fome. Após 6:21:09, cheguei para correr a maratona com as pernas bem cansadas. Mas os 11 minutos de T2 foram mais que suficientes para voltar a me sentir bem.

Saí para correr sem estar travado, sem iminência de cãibras e com muita alegria por estar lá! Afinal, a corrida é a etapa mais interativa da prova! Muita energia é captada do público e vice-versa. Sensacional!!!

Já conhecia a 1ª volta, da experiência no ano interior, ao lado do Léo. Tinha como meta fazer esses 21km em 2h20 para estar descansado nos últimos 21km, mas estava tão bem, tão feliz que demorei 4km para encaixar o ritmo do treino (cerca de 6:20/km). Feito isso, fui indo, km a km pelas ruas de Floripa.

Ao passar em frente ao hotel em que estávamos hospedados, fui recebido com festa pelas famílias dos meus amigos, Isaac, Luciano e Léo. Estavam lá suas esposas (Tati, Angela e Bianca) e filhos que me deram muita força! Terminei a minha primeira volta com ritmo de 6:08/km e encontrei o Witney, já iniciando a 2ª volta de 10,5km dele, ou seja, nos finalmente…

Ele me confidenciou que se sentia cansado, que eu poderia prosseguir minha prova, mas decidi ir ao lado dele e aproveitar a oportunidade de correr ao lado de um grande companheiro. Além de ajudá-lo a manter um bom ritmo, ele me ajudaria a frear o ímpeto de continuar forte e “quebrar” na última volta. Não era isso que queria. Mas o devagar do Witney é um ritmo muito bom, então fizemos muito bem essa volta de 10,5 em que eu pegaria minha segunda pulseira e o Witney encerraria sua prova. Belo tempo, 11h30 não é pra qualquer um!!

Os destaques dessa 1ª volta de 10,5km foram o Alê Gaziola correndo ao nosso lado por uns 500m, participando ativamente da nossa prova, assim como fez por toda a preparação pro Iron. 2014 é o seu ano Alê, tenho certeza disso e estarei lá torcendo para você! e o outro destaque é como o Witney é galã….rsrsrs…o que teve de mulher gritando “GO WITNEY, GO!!!” não é brincadeira não!!! Mas o homem é muito sério e manteve o foco!! hahaha…

Bom, agora era minha última volta e eu estava com a “faca nos dentes”…rsrs…Faltavam “só” 10,5km. Molezinha certo Rafa?? rsrs. Como me sentia bem, estava tudo em ordem com a alimentação e com as pernas, decidi aumentar novamente o ritmo. À medida que os kms iam passando, a ansiedade aumentava (confesso que só fiquei ansioso durante essa parte da prova), pois queria ver o pórtico iluminado e queria muito ouvir meu nome sendo anunciado como o mais novo “IRONMAN”!

Quando finalmente virei novamente na Av. Búzios para a reta final, o Enzo e o Tatá estavam ao meu lado e ouvi do Tatá “tudo isso é vontade terminar?? Tá voando pô!”…Realmente estava Tatá…e sim, era vontade de abraçar a família e coroar toda a jornada iniciada meses antes com a passagem pelo pórtico.

Nesses kms finais, ouvia gritos, aplausos, tapinhas nas costas e o sorrisão no rosto não conseguia mais desmanchar…Arrepiado, entrei no funil de pessoas e logo avistei minha Mãe, Luci, e minha namorada Nathalia. Ainda consegui avistar meu Pai, Francisco na arquibancada, com um sorrisão enorme no rosto! Dei as mãos a elas e corremos até o momento esperado por TODOS os triatletas que se dedicam a disputar um Ironman: EDUARDO, YOU ARE AN IRONMAN!!!

Obrigado especial aos grandes Enzo Amato e Rafa Dutra que, em uma parceria mais que vencedora, conseguiram tornar realidade o sonho de me tornar um IRONMAN. Dois profissionais que me fizeram crescer como atleta e, principalmente, como ser humano! Os valores aprendidos ao longo dessa preparação valem, pra mim, muito mais que técnica e dicas esportivas.

Enzo, o que valeu demais durante a prova, foi ver a sua cara de felicidade e orgulho ao me ver passar. Você que aceitou o desafio no ano passado, tinha certeza naquele momento que ganharia mais 6 novos IRONMAN’s. Show! Essa imagem ficará pra sempre na minha memória.

Você também, Rafa. Você que expressava um misto de tranquilidade / preocupação / empolgação ao encontrar comigo foi marcante. Até que conversamos bastante durante a corrida, e eu tentando passar tranquilidade a você rsrsrs…Mas eu vi que você estava bem confiante em mim, ainda mais quando disse que estava sem dores. Só estava comendo o bolo com calma… haha

Muito obrigado aos “OLD Irons” Tatá, Gus, Du Coimbra, Clodoaldo, Silvião, Eloi Catto e, claro ao Witney, Léo e Irio que também estavam lá disputando a prova. Acho que vocês não têm ideia da contribuição que nos proporcionaram. Pode ter parecido pouco para vocês mas, pelo menos eu, consegui absorver muito das mensagens e dicas e elas foram fundamentais durante a prova.

Aos “NEW Irons” Luciano, Piru, Isaac, Zé Renato, Gustavo pelo companheirismo nos treinos e pela ajuda sempre!!! Parabéns pela prova de vocês também!!!

Carinho especialíssimo para Samanta Oliveira, que em agosto de 2012, enxergou a chance de aplicar todo o conhecimento dela em Pilates em um cara que reclamava de dores durante uma corrida de 20km. Não só conseguiu, como me fez chegar ao Ironman em totais condições de encarar os 42km da maratona. Sá, sem você eu não teria conseguido!! Você sabe disso e serei eternamente grato por toda a sua atenção e dedicação comigo!

Agradeço muito ao nutricionista Gustavo Lázaro, que acertou em cheio na minha preparação nutricional e foi capaz de me deixar pronto pra prova. No jogo de tentativa e erros que é a estratégia nutricional de um Ironman, fizemos testes e mais testes até acertarmos! Obrigado mesmo pela disponibilidade a qualquer momento de dúvida!

Como mencionado no texto, ao meu amigo e bike fitter Charles Pereira, só comento que além de te achar um monstro numa prova de Ironman, você é o meu professor de mecânica de bikes…Obrigado pela paciência, pela ajuda e pelos treinos juntos. Parabéns pela sua prova: 10:36 é para os feras!!!

Obrigado ao Daniel Almeida, Arthur Ruffatto, Edelson Salles, Gerson Bikes, Caio Visacre, Daniel Toreta, Flavio José, Fernando Tolin, Denise Pompermayer, Rogerio Pinatti e Anna Barros e todas as pessoas que me ajudaram com dicas e treinos.

E, por fim, minha Família! Ah, a família…Como descrever em palavras a importância que essas pessoas têm em nossas vidas?? É melhor agradecer a Deus, porque Ele foi muito bom comigo!!! Papai, Mamãe, minhas irmãs Cláu e Cris, vocês nunca me impuseram limites! Sempre acreditaram no que eu seria capaz. Sinto-me orgulhoso por vocês terem orgulho de mim! Amo vocês!

Nathalia, minha companheira nesses últimos 4 anos. Tantas histórias juntos, tantos lugares conhecidos, tantos momentos vividos que nem sei se nos conhecemos há pouco tempo assim..rsrs…Você e sua família, Marcos, Odete e Mari, me acolheram bem e estavam lá torcendo por mim nesse dia tão especial! Obrigado demais! Amo vocês também!

Nunca deixem de acreditar nos seus sonhos. Busque-o de maneira idônea e limpa. A alegria da recompensa é imensurável!

“I know I was born and I know that I’ll die, the in between is mine”

Inesquecível e comovente… Assim ficará para sempre marcado no meu coração e nas minhas memórias o Ironman Brasil 2013. O meu primeiro Ironman! Espero que primeiro de muitos!!!

Abraços e Beijos a todos!

Edu Anjos (04/06/2013).

Endurance Challenge Argentina 2013 – 50km

Bariloche – Cerro Catedral

Não podia dar outra, mesmo com a mudança de percurso decidida no dia anterior pelo mal tempo da semana, a prova foi dura e espetacular.

Percebi a variedade de trilhas no dia da prova. O traçado visto do mapa havia sido todo modificado, a prova chegaria aos 2100 metros, mas a chuva e neve dos dias anteriores fizeram os organizadores optarem por não subir tão alto pela segurança dos atletas. O dia da corrida, ao contrário da semana toda, estava com temperatura boa para correr e céu com poucas nuvens. Dividi um táxi com outros 2 corredores saindo do centro de Bariloche até o Cerro Catedral, local da largada, já estava pronto, só faltava deixar a roupa no guarda volume e colocar água na mochila, tudo isso dentro de um pequeno shopping na pequena vila e que no inverno é uma estação de esqui, as 7:50 faltando 10 minutos para a largada, queria fazer um aquecimento e gravar algumas imagens, nesse momento a câmera indicava “sem bateria” e desligava sozinha, a frustração acabou comigo naquela hora, tentei algumas alternativas e nada funcionou, resolvi voltar ao guarda volume e deixar a câmera, isso me custou parte do aquecimento e ter que largar atrás dos 500 corredores que se agrupavam no funil para a distância de 50km.

Logo de cara uma parede, começamos bem devagar e a sorte é que era por uma estrada larga de terra e pude ultrapassar facilmente os que não corriam no mesmo ritmo que eu. Ainda tomado pela frustração de não poder carregar a câmera para registrar imagens lindas que estavam por vir, comecei a me reprogramar para curtir a prova, e não me faltaram bons motivos.

Logo nos primeiros kms já me sentia renovado e resolvi fazer dessa corrida minha prova forte de 2013, minha despedida de solteiro, já que uma semana depois me casaria, e ao mesmo tempo, cravar essa corrida na memória, já que não tinha mais a responsa nem desculpa de carregar a câmera para fazer boas imagens parando ou reduzindo o ritmo, resolvi ir com tudo, eram respeitosos 50km com altimetria em constante variação, mas havia adquirido um bom volume durante o ano todo e podia me dar ao luxo de forçar.

Além das ultrapassagens do início, a partir do km 10 comecei a alcançar pessoas que estavam além do próprio ritmo, o efeito manada que acontece em qualquer prova. Os pontos de hidratação estavam distantes uns dos outros e por isso comecei com a mochila com quase 1litro de água e mais uma caramanhola com um pouco de isotônico, no km 17 havia um ponto de abastecimento enorme, acredito que dentro da recepção de um clube, com comidas e bebidas, desde arroz até café. Fiquei alguns minutos e a prova se desenrolava rapidamente, estava muito bem. Quando não estava no alto de uma montanha com a vista incrível, estava perto do Lago Gutierrez com água super cristalina e casas de veraneio enormes com jardim e sem muros ou grades.

Entre montanhas, muito sobe e desce e visuais maravilhosos reparei também que depois de 30km continuava a ultrapassar corredores, e isso era ótimo, sabia que havia começado forte, mas não a ponto de extrapolar, e ainda continuava bem.

Dentro do circuito Endurance Challenge, que acontece em vários países, inclusive no Brasil, essa etapa foi a que teve maior número de atletas, atingiu o limite de 2000 nas 4 distâncias, o que para uma prova de montanha é realmente muita gente, com isso também levamos muito lixo para as trilhas o que foi impossível não notar. O contraste da beleza da natureza com o lixo que encontrava no caminho era o ponto fraco do evento.

Segui firme, minhas batatas com sal e queijo ralado davam energia sem incomodar o estômago, com 43km nas pernas cheguei no mesmo ponto de apoio que passara quando estava no km 17, tomei café, isotônico e água, comi um pouco de doce de membrillo e toda essa mistureba me fez correr bem mais devagar a partir dai. Via outros corredores também no mesmo ritmo que eu e imaginava que não estava tao mal, a partir do km 47 comecei a passar por alguns córregos de água de degelo que descia a montanha, fiz deles um ponto de hidratacao, e chegava a não sentir os pés de tão gelada, e isso que eram apenas alguns passos dentro da água.

Completei os 50km em 6h23 e na 59ª colocação o que me deixou ainda mais contente. Para mostrar, só tenho algumas fotos que a organização mandou e a medalha, mas na memória tenho muito mais e no coração todo o orgulho.

Em 2014 a etapa argentina do Endurance Challenge acontece em San Martin de Los Andes, em abril, ainda não conheço a cidade, mas é na mesma região e já ouvi que é tao ou mais linda que Bariloche.

Enzo Amato