Fiambala Desert Trail 80km, parte 2, a corrida!

A corrida!

Depois de toda aventura para chegar até Fiambala (clique e leia texto 1) na linha de largada, saímos da pequena cidade e logo estávamos na escuridão do deserto entre areia e arbustos quase sem folhas por culpa do outono, olhar brevemente para cima e ver a Via Láctea rasgando o céu todo estrelado era um espetáculo, não gosto de correr a noite, mas aquilo me motivava e sabia que logo o sol viria celebrar a corrida. Larguei literalmente por último para fugir do efeito manada de qualquer largada, com 10min e ainda com batimentos bem baixos, 140, comecei a ultrapassar os mais afoitos, nas corridas noturnas é fácil identificar grupos, nesse caso por várias vezes liderei alguns deles e a adrenalina aumentava ao ter que procurar as marcações que refletiam com a luz da lanterna, como não havia pista demarcada e as vezes os pontos estavam distantes, essa tensão e atenção fazia o tempo passar mais rápido, cheguei ao 1º posto de abastecimento no km 16, em 1h43, corrida fácil até aí, saí dos 2100m de altitude e desci até 1600m, a caminho do posto nº 2 já perto da largada dos 50km, ainda estávamos correndo para o Leste, vento da esquerda, como previsto, indo para o Sul, o  sol começava a dar contorno as montanhas à frente e encontrei novamente meu amigo de Facebook, o Carlos, que começou a falar ao celular muito entusiasmado, disse que o dia clareava, que uns locais lhe haviam dito que por ali passou o Dakar, que a areia nos estava colocando em nosso devido lugar “ditando o ritmo” me fez dizer algumas palavras sobre a corrida e depois me contou que estava ao vivo na rádio que ele trabalha como jornalista, rs.

O dia clareou e junto com o sol, um show de cores nas montanhas, passamos pelo único rio do percurso, e perto de todo rio tem um povoado, aquele se chamava Taton, cidade que sediou a largada da turma dos 50km, subimos e descemos um morro por estrada de terra e pedras alcançando o posto 2 com 34km. 

Novamente mais areia fofa já seguindo para o sul, para depois pegarmos uma estrada, uma reta interminável com vento soprando areia, era quase 11 da manhã quando parei para passar protetor solar e colocar o boné e o óculos de sol, rapidamente tudo se encheu de areia, estava abrigado atrás de um pequeno arbusto que não adiantou nada, mais de 1h naquela estrada acompanhando as montanhas dos dois lados, esse trecho serviu para dimensionar a corrida, comecei a sentir que a areia me tirava energia em cada passada, lógico que isso acontecia desde o início, mas no início o tanque está cheio. 

Cheguei a outro posto de hidratação, o 3º, eles estavam bem distantes uns dos outros, levava entre 1h45 e 2h30 entre eles, e em cada um enchia o reservatório com água para certificar que não faltaria, saí da estrada e invadi as dunas novamente, impossível manter o ritmo de corrida, usava os batimentos como parâmetro e naquele terreno só era capaz de fazer uma corrida medíocre, era a parte mais difícil da prova tanto para o físico quanto para a mente, já havia feito 46km, mas ainda faltavam 34km e o ritmo era penoso, tudo isso te deixa na dúvida, mas é hora de lembrar nos bons treinos realizados e fazer a confiança voltar, sabia que estava lento pelo terreno e pela hora do dia sem um pingo de sombra a vista, segui em frente me adaptando ao ritmo que o percurso me impunha. 

Cheguei ao posto 4, havia feito 60km o vento e a areia eram muito fortes e nada podia pará-los, naquele ponto já sentia o vento e a areia como uma tortura chinesa, sentei um pouco, respirei fundo, me tapei todo e voltei pra prova, ainda lento, percebi que não via fitas de marcação do percurso há algum tempo, mas continuei seguindo um corredor que via mais longe a frente, pensei que as fitas haviam sido levadas pelo vento, erro, quando percebi éramos um grupo perdido de 15 pessoas, a maioria dos 50km, sabíamos que a corrida rumava para o Sul e depois de um tempo vimos corredores descendo por um morro, até então não sabia o que havia perdido e sabia que não havia corrido menos que eles, pensava que eu estava correndo mais a direita, já que não havia pista. Depois soube que havia perdido a melhor parte, atravessar uma duna alta.

No posto 5, com 69km, faltando apenas 11km já havia desanimado da possibilidade de chagar com dia claro, estava muito cansado, a areia me desgastou aos poucos, mas lá encontrei os fotógrafos que viajaram comigo e me incentivaram, naquela hora a temperatura já começara a baixar e o percurso ficou bem pedregoso e dinâmico, tudo isso parece que me ajudou a voltar a correr melhor, aquela energia mental que nos inunda no último km chegou pra mim 10km mais cedo, para quem já estava sem joelhos talvez fosse a parte mais dura da prova já com 70km nas pernas, mas pra mim foi renovador, a confiança de chegar com sol havia voltado e me sentia bem, aproveitei esse momento para correr sempre que possível me sentia ágil pisando de pedra em pedra, é verdade que um tropeção de vez em quando me colocava alerta novamente.

Faltando 3km pegamos o único trecho de asfalto da prova, já era possível enxergar Fiambala à frente e o sol ainda levaria algum tempo para se esconder atrás da montanha mais alta no Oeste, cheguei na praça central moradores e corredores me aplaudiam com acanhamento, mas bastou um sorriso meu para que fizessem mais barulho, 12h25 depois de largar, finalmente completava esses 80km no deserto argentino e foi sensacional!

Assista ao vídeo da prova!

Como chegar:

  • De Buenos Aires havia um pacote fechado com uma empresa de ônibus, que levava direto a Fiambala que está a 1400km da Capital Federal aproximadamente 18hs de viagem.
  • Pode-se ir de avião desde Buenos Aires até Catamarca e fazer 350km de carro alugado.

O que usei na corrida:

  • Tênis leve com cravos Skechers Go bionicTrail;
  • Calça legging Adidas;
  • Polaina de compressão e manguito OG;
  • Polaina contra areia Noaflojes;
  • Camiseta térmica Nike + camiseta oficial do evento;
  • Corta vento Montagne e luvas Quechua no início;
  • Mochila de hidratação Quechua Diosaz 10L;
  • Boné Ansilta, bandana Guepardo e óculos de sol Briko.

O que comi:

Torrone, damasco seco, castanha do Pará, amêndoa salgada, 2 cápsulas de cafeína (100mg), 1 gel de carboidrato, muita água, meia banana e powerade oferecido pela organização.

Enzo Amato

6 ideias sobre “Fiambala Desert Trail 80km, parte 2, a corrida!

  1. Parabéns Enzo,

    O vídeo mostra bem o sofrimento e o preparo que tem que ter pra correr isso tudo.

    Imagino que seja algo ímpar essa experiência.

    Abç.

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