Ultra Maratón Aconcágua, não oficial.

No km 10 haviam umas 30 pessoas paradas em frente a ponte e um carro da polícia dizendo que a corrida estava cancelada, vi os corredores a minha frente esquecerem a ponte e passarem pelo rio com água até as canelas e seguir caminho, antes de fazer a mesma coisa ouvi um pedido de desculpa de um dos organizadores e continuei a correr forte como antes, mas assim que cheguei ao 14º km me disseram que corrida estava cancelada, que nada daquilo estava contando e me recomendaram dar meia volta.

Tudo começou perfeitamente bem amparado, como uma prova em ambiente inóspito deve ser. Fiz 3 dias de aclimatação, ao menos 2 eram obrigatórios para os corredores de 50km, na entrega de kits passei por um controle médico, feito por médicos que trabalham na montanha na temporada de escaladas, respondi a várias perguntas, mostrei o atestado médico detalhado, os equipamentos obrigatórios, paguei a entrada ao parque. Eu e mais 500 corredores de 15 países estávamos prontos para participar da primeira, e talvez única edição, da Ultra Maratón Aconcagua. No congresso técnico nos explicaram para oferecer ajuda a qualquer corredor que possa parecer precisar e avisar os staff do percurso, e que naquele local estávamos correndo sob as regras do montanhismo e não simplesmente de uma competição, tínhamos 2 helicópteros para resgate, todos os staff do percurso eram experientes em montanha, na metade do caminho faríamos outro controle médico respondendo perguntas e medindo saturação de oxigênio, enfim, tudo parecia muito bem organizado e deixava uma boa impressão.

Minutos antes da largada o locutor nos disse para esquecermos a manifestação que nos esperava no caminho e seguir correndo. A essa altura não me passava pela cabeça que teriam o poder de cancelar a corrida.

A largada foi dada as 7:30 para os quase 200 corredores dos 50km, fizemos um trecho plano de 2km antes de sair dos 2740m.s.n.m. rumo aos 4200m e retornar para o mesmo local. O pessoal dos 25km já começou subindo, largando meia hora depois.

A paisagem era muito bonita apesar do dia ter amanhecido nublado diferente dos dias anteriores de sol e céu azul, o Aconcágua estava encoberto, talvez sabendo do vexame resolveu esconder a cara. Quando cheguei ao km 10 passei por um carro da polícia que disse que a corrida estava cortada, depois vi cerca de 10 pessoas bloqueando a pista e corredores subindo o morro ao lado fazendo meia lua para desviar desses 10 gatos pingados, um dos staff nos avisava para não seguir, mas daquele ponto eu via corredores cruzando o rio e seguindo caminho, pois a uns 100 metros adiante outras 20 pessoas aglomeradas bloqueavam a passagem pela ponte, como qualquer corredor de trilha faria e sem pestanejar, todos atravessaram o rio com água nas canelas sem dificuldade. Até esse momento nada me havia parecido um incômodo e imaginava que como poucos corredores haviam passado até então, os organizadores não sabiam muito bem o que fazer, mas os próprios corredores deram um jeito e passaram pelo problema, assim como escutamos antes da largada, isso não me custou mais do que um minuto, e com toda a adrenalina da prova eu segui forte e subi forte até o 14º km a 3400m local chamado de confluencia, metade da subida da prova, onde uma tenda de hidratação esperava os corredores para o controle médico, bebidas e comidas, cheguei nesse ponto filmando e alegre com meu desempenho, pois me sentia realmente bem, anotaram meu número a médica me fez as perguntas, me observou, fez o teste de saturação de oxigênio e quando eu perguntei se podia sair ela me jogou um balde de água fria dizendo que a corrida estava cancelada, outro me recomendou fortemente que retornasse porque daquele ponto em diante eu estaria por conta própria e que o clima estava ruim mais acima, corredores fortes estavam na tenda e desceram, mesmo assim eu vi um ou outro corredor subindo e escutei outro dizendo que alguns que já haviam subido eram guias de montanha, então vesti mais um agasalho e o corta vento e disse ao staff que subiria mais um pouco até onde me sentisse seguro e depois retornaria, eles anotaram meu número para saberem que eu estava na montanha. A partir desse ponto minha corrida forte se tornara um trekking, passei a caminhar, não pelo cansaço, mas pela desmotivação, prestava muita atenção ao percurso e ao relógio para controlar a hidratação, a alimentação e saber a quanto tempo eu estava da tenda. Aos poucos fui vendo que o número do altímetro subia, que as marcações de percurso estavam nos lugares, o terreno era “corrível” e eu me sentia bem, então passei a correr novamente pensando em atingir metas de altitude, reprogramei minha prova e tentava pensar em aproveitar meu dia da melhor forma, ainda que em vários momentos eu tentava entender como um grupo de pessoas conseguiu cancelar um evento internacional onde a secretária de turismo da província de Mendoza e o secretário de turismo nacional estavam presentes no simpósio técnico discursando sobre a importância do turismo no local…

Quando meu relógio marcava 19km vi o primeiro corredor voltando, quando o segundo passou perguntei até onde ele havia ido, ele disse rapidamente, até o mirador e seguiu forte. Isso me animou a chegar até o mirador, que é o lugar de onde se observa a parede sul do Aconcágua bem de perto com 3mil metros de altura, imponente e cheio de energia. Gravei bastante nesse ponto onde haviam vários staff muito animados por sinal, tomei água quente, comi algumas nozes, anotaram meu número, fizeram tudo como se deve, gravaram vídeo, fizeram fotos, senti como se a corrida estivesse valendo novamente. Originalmente o percurso seguiria por mais 2km a frente, mas todos estavam retornando nesse icônico marco que é o mirador de la pared sur, e eu estava contente de ter chegado a mais de 4mil metros correndo sem sentir nada de diferente no corpo além do cansaço de ter subido por quase 4hs. A volta foi bem mais fácil, a corrida rendia, o percurso exigia agilidade apenas em alguns pontos, mas atenção sempre, voltei para a tenda em confluencia aos 3400m avisei aos médicos que havia voltado, lá alguns corredores estavam bem exaltados e inconformados, pois tudo seguia com controle, mas nada estava valendo. Continuei a descida, o vento resolveu acelerar e passei mais frio a 3mil metros do que a 4mil, mas estava com as roupas certas e isso não incomodou, corri tudo e cheguei, o pórtico estava lá, o relógio estava lá, também o tapete de cronometragem, os organizadores, o isotônico, o chá quente e o guarda volume, mas até agora não entendo e não me conformo com a decisão de cancelar a prova.

Apesar de ter desfrutado de boa parte das 6h45 de corrida eu queria que ela fosse oficial e não virasse um super treino de luxo como eu a batizei durante a descida.

Depois, conversando com mais pessoas, soube que eram funcionários do parque revindicando sei lá o que, mas conseguindo afundar mais a imagem do país. Disseram que um dos primeiros corredores foi empurrado pelos manifestantes, mas todos que vi desviaram e não tiveram problemas, e todos que me contaram também disseram o mesmo, todos cruzaram o rio. O terceiro colocado geral, que estava hospedado no mesmo hostel que eu, soube do cancelamento da prova só depois de ter corrido 3/4 do percurso.

Fiz um vídeo com lindas imagens, de um percurso desafiador, ao lado da montanha mais alta do mundo fora dos himalaias, mas que a decisão equivocada de um organizador conseguiu ferir tanto a própria imagem, que mesmo com todos esses atrativos do local não sei se conseguirão retomar a credibilidade para uma próxima edição, só tenho a lastimar que mesmo tantas boas impressões iniciais conseguiram se apagar tão facilmente.

Escrevo esse texto menos de 24hs depois da prova e sem ter lido a explicação da organização, vou ler agora e se tiver que adicionar ou comentar qualquer outro parágrafo a este texto, deixarei registrado nos comentários logo abaixo.

Enzo Amato

Vou correr e já volto!

Por alguns dias deixo de atualizar o blog porque estou em viagem, a caminho de duas provas que vão ser muito legais de comentar e claro, correr.

Isso mesmo, apenas uma semana separa as duas e talvez muita dor muscular também. Aguarde lindas imagens e provavelmente uma opção de destino para ano que vem.

Até a volta.

Enzo Amato

 

Long Distance Pirassununga 2014 e o triathlon.

Uma cena me fez observar a prova por um outro ângulo, ou melhor observar o triathlon no Brasil real.

O triathlon não virou o esporte que eu achei que o Brasil pudesse alavancar em 1999 quando comecei. 8mil km de litoral, o ano inteiro para treinar por causa da pequena amplitude térmica, 202 milhões de habitantes, sol, enfim, parece que esse meu olhar só para o clima e posição geográfica foi muito restrito.

Vi a uma prova de triathlon, relevante no calendário nacional, com as mesmas caras de sempre e poucos atletas, se comparado a outros esportes. Sempre reparo na pouca quantidade de mulheres, mas se comparar com países desenvolvidos são poucos atletas em geral.  Se vejo muitas caras antigas, também vejo atletas que não conseguem sequer subir na bike, sem qualquer afinidade com ela, talvez encarando uma prova longa cedo demais.

Ainda preciso colocar a cabeça no travesseiro mais vezes para tentar entender ou entender cada vez menos o que acontece, se o trânsito violento desmotiva os treinos de bike, ou se o valor da bike desmotiva novos atletas a descobrirem o esporte, ou se o valor da inscrição na prova é caro demais, se o querer tudo pra ontem faz com que pessoas entrem em provas longas sem experiência, sofram e desistam de fazer a próxima, se ficou tão competitivo a ponto de amadores se doparem… sei lá, como espectador, saí de Pirassununga com duas cenas na memória sobre o triathlon, a dos atletas colocando na reta de chegada toda a emoção de conquistar uma prova difícil certamente com vários meses de treino junto, e a outra, que me fez escrever esse texto, caras com camiseta de Ironman catando caramanholas do chão e colocando em sacos plásticos para levar pra casa, ou vender no ferro velho.

Parabéns a todos que passaram naquela reta de chegada, são esses momentos que ainda me fazem gostar desse esporte que poucos praticam e justamente por tê-lo praticado por mais de 13 anos, posso ser crítico as vezes.

Leve em conta que eu estava de mau humor quando vi a cena, mas gostaria de ler sua opinião.

Enzo Amato.

Vídeo Mizuno Uphill Marathon 2014.

Muito vento e muita chuva que deixou tudo mais frio, mas não suficiente para fazer esquecer que tinha muita subida também.

Para o relato pessoal completo basta clicar aqui. Divirta-se, inspire-se e comece a treinar para 2015.

Enzo Amato

Clínica com as feras da corrida de montanha.

Já se imaginou nadando com Cielo ou batendo uma bolinha com Neymar? Pra quem gosta de correr foi assim.

Carlos Magno, o mais alto, Manu Vilaseca, eu, Fernanda Maciel, e Marcelo Sinoca – (Foto: Marcelo Fim)

A clínica com os corredores(as) de montanha da marca The North Face aconteceu em Cotia, na grande SP.

Meu grande motivador para participar era poder conhecer de perto a Fernanda Maciel, 4ª colocada na famosa Ultra Trail Du Mont Blanc, de 168km, e quem sabe correr um pouco ao lado dela. Esse estopim acabou me dando o grande prazer de conhecer de perto outros atletas que entraram para minha restrita lista de atletas profissionais que admiro.

Eram 5 estações com temas diferentes onde cada atleta falou sobre um deles, éramos cerca de 40 pessoas divididas nessas 5 estações, o que acabou deixando a conversa bem mais pessoal com grupos pequenos que trocavam de estação a cada meia hora mais ou menos, comecei ouvindo a Manu Vilaseca falar sobre a parte mental de enfrentar essas provas longas, a Rosália Guarischi sobre a realidade de todos nós, inclusive a deles, de encontrar tempo para treinar e trabalhar, depois o Marcelo Sinoca sobre as minúcias de escolher bem os equipamentos adequados para as condições da prova que vai enfrentar, aí passei para o Carlos Magno que falou sobre estratégias de prova e finalmente a Fernanda Maciel que contou sobre a preparação dela para arrasar na UTMB 2014 encarando outras provas duras como treino.

Suando a camisa
(Foto: Marcelo Fim)

Depois do café da manhã, e dessa parte teórica, encaramos a trilha com os atletas que deram dicas valiosas tanto para corredores experientes quanto para iniciantes, desde travar o abdômen nas descidas até como usar os bastões com agilidade nas subidas, então passamos para o almoço e mais momentos de interação com todos, inclusive fotos.

Como treinador o que pude aprender ouvindo cada um deles é que mesmo os atletas que brigam pelos primeiros lugares passam por altos e baixos motivacionais durante as corridas e que além da capacidade de correr mais rápido que a gente, eles também desenvolvem uma força mental muito grande para continuar. Pude também perceber no discurso de todos eles que o prazer de correr vem em primeiro lugar, seguido da capacidade de treinar e da força mental para contornar as dificuldades, é um processo evolutivo que podemos associar ou comparar com qualquer esfera da nossa vida, tanto na pessoal e profissional, quanto na esportiva.

Rosália, Lu que organizou o evento e eu.

Outros detalhes pessoais citados por eles servem para nos ensinar que a essência está em adaptar tudo para a nossa realidade a partir da prática, ou seja, não é necessário correr sem meias como o Carlos Magno, ou de short em provas com temperaturas negativas como o Sinoca, mas sim descobrir o que funciona para cada um de nós através da prática, dos erros e acertos, para que tudo culmine no prazer de se desafiar e nunca parar de explorar. Depois de mais de 18 anos de corrida pude aprender um pouco mais com eles, pena que estava tão embasbacado por estar tão perto deles que as perguntas que eu tinha na cabeça sumiram, mas me conforta lembrar de um professor que dizia que quando saímos de um curso com mais perguntas do que quando entramos é porque aprendemos algo.

Espero poder encontrá-los mais vezes antes da próxima clínica.

Enzo Amato