Ultra Trail Torres del Paine 50km.

Foi a corrida mais bonita que já fiz!

(En breve en español)

A Ultra Trail Torres del Paine (UTTP) passa por quase todo o circuito W, e tem 3 pontos de inigualável beleza. Entre um e outro, paisagens de tirar o fôlego, lagos de várias cores, bosques e montanhas nevadas. A natureza no seu estado mais selvagem.

Comecei logo com 7km predominantes de subida, mas antes de chegar ao topo vi os 4 primeiros colocados voando na descida com uma diferença de não mais de 10” uma disputa bem acirrada.

Natureza e esporte combinam.

Segui subindo para chegar ao 1º ponto de retorno, com vista privilegiada das Torres, ou cuernos, como alguns dizem. Momento especial para fotos, vídeos ou olhadas para guardar na memória. Voltei descendo empolgado, mesmo com alguns pontos técnicos, raízes, curvas fechadas e trilha estreita. Encontrar os conhecidos ou mesmo falar holapara desconhecidos me dava uma energia extra. Foram boas descidas até o ponto de abastecimento no km 15. Trivial, água, isotônico, frutas, PÃO COM GELÉIA, isso pareceu um oásis no deserto, recarreguei a água, abandonei o trivial, peguei o pão e logo voltei ao meu bom ritmo. Nesse momento bordeava um lago cor esmeralda, com as montanhas gigantes sempre a direita e paisagem infinita a esquerda.

Lindas paisagens por todo percurso.
Foto: Recasur rent a car

Alguns km de trilha estreita com esse visual até que cheguei no início da segunda subida do W, km 27, os 3 primeiros já haviam subido e descido, mas tive a chance de ver Fernando Nazário em ação, 4º colocado naquele momento numa descida bem técnica, o incentivei, ele retribuiu e seguimos em direções opostas. Para ele já era km 31. Eu ainda tinha os 2km de subida pela frente, muitas pedras que formavam degraus enormes e percurso difícil de encontrar. Era preciso atenção com as marcações vermelhas do parque em árvores e pedras que mostravam o caminho. A esquerda um paredão nevado de quase 3mil metros que fazia ruído de trovão a cada avalanche.Foi nessa hora que fiquei mais maravilhado com o percurso e com o poder da natureza.

Subida mais casca da prova.

Moises Jimenes 1º colocado.

Nem 2/3 de prova e a considerava a mais bonita de todas que já havia feito. Quando cheguei no topo da subida tinha toda a montanha para observar e fiz questão de esquecer que era uma corrida. Filmei, falei, respirei fundo e olhei com calma tudo aquilo. Até começar a descida, ora lenta e difícil, ora desenfreada como corrida de criança. Dizia aos corredores que subiam para prepararem as câmeras. No fim da descida parei no abastecimento do km 31, antes de cruzar a ponte pênsil, sentei para tirar uma pedra do tênis enquanto comia biscoito recheado e tomava um café. O próximo ponto estava a 7km e reabasteci a garrafinha com água suficiente para chegar.

O percurso continuava lindo, rodeava as montanhas, mas enfrentei meu pior momento entre os km 35 e 38, gases e desconforto estomacal me fizeram reduzir bastante o ritmo, talvez desidratação ou barrinhas de cereal que nunca havia comido, ou tudo isso misturado com café… enfim, mais um obstáculo a ser superado.

Cheguei ao ponto de apoio no km 38 com um pouco de tontura, comi meia banana, tomei isotônico e deitei com as pernas para o alto por uns 5min até que me sentisse melhor. Parti para os últimos 11km, sendo 5,5km de ida até o mirador do glaciar Grey, subi um pequeno vale seguindo uma trilha silenciosa a direita do lago Grey, onde o glaciar desprende suas pedras de gelo enormes.

Matt Maynard do GreenBeanTrails.com, 2º colocado com Glaciar Grey ao fundo.
Foto: Graciela Zanitti / iloverunn

O ponto de retorno era o último ponto espetacular da prova, a 3ª perna do W. Uma massa de gelo com vários km de extensão, as nuvens altas nos davam permissão para ver o glaciar longe, até onde a vista alcançava.Bem ou mal, tive outro momento de baixa na prova e resolvi sentar de frente para o glaciar, comer uma barrinha de cereal, gravar imagens, respirar fundo e descansar. “Perdi” outros 5 minutos ali. Estava contente com minha corrida, tinha pernas, o clima estava ótimo para latitude 51°, sem vento, visibilidade ótima, só me faltavam 5km de comemoração, sabia que o mal estar passaria logo. A constatação de que estava na corrida mais bonita dos mais de 20 anos que corro, já trazia de 15km atrás.

foto: Graciela Zanitti / iloverunn.com

Levantei, dei meia volta e fiz meus últimos 5,5km. Correr rápido fazia o estômago chacoalhar e o mal estar voltar, por isso fui devagar e assim completei os 50km em mais de 8h.

Antes que pudesse cumprimentar a todos os amigos e comer o prato de macarrão que me esperava no Refúgio Paine Grande, fui avisado que um corredor havia falecido no percurso. A corrida que considerava a mais bonita foi também a mais triste. Jonatan Canto tinha apenas 23 anos, passou mal na segunda subida, se sentou e teve uma parada cardíaca. Isso fez com que muitos corredores que viram o ocorrido desistissem da prova naquele momento. Não o conhecia, mas durante minhas gravações, no café da manhã, 1h antes da largada, o filmei por um segundo. Tempo suficiente para que ele sorrisse para a câmera de um desconhecido, esse é o espírito de um corredor de montanha, e ele o tinha. Morreu como muitos de nós gostaríamos de morrer, correndo, mas sem dúvida foi cedo demais.

Todos voltamos de barco até o ponto onde os ônibus levariam os corredores para seus hotéis no parque, ou Puerto Natales, a cidade mais próxima. A alegria de ter feito uma corrida tão linda não conseguia superar o desânimo de saber que um corredor, como eu, como todos ali, não voltaria mais para sua casa. Foi um momento raro que nunca havia vivido antes.

De uma forma ou de outra essa corrida ficará marcada em meu coração. Por ser a mais bonita e por me fazer dar mais valor a cada segundo dessa vida fugaz.

- Em breve o vídeo da prova com lindas imagens.

- Participei da corrida a convite da organização e seguramente voltaria. Além disso pretendo voltar como turista e fazer o circuito W com a família.

Enzo Amato.

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