Ultra Trail Torres del Paine 50km – 2015 – Vídeo

A corrida mais bonita que já fiz.

Passa por quase todo o famoso circuito W. Trilha do Parque Nacional Torres del Paine que normalmente se faz em 4 dias de caminhada. Em 2015 nos tocou um lindo dia sem vento, temperatura amena e céu aberto. Assista às lindas imagens.

Clique para ler a crônica completa de como foi minha prova. (En espanhol)

Você corre, a Freeway Sports pensa no resto.

Enzo Amato

Vulcano Ultra Trail 2015

Rumo ao Vulcão Osorno.

VUT 42Km – Parque Nacional Vicente Pérez Rosales, Puerto Varas, Chile, 2015

Por Vívian Lemos

Depois de vários meses de preparo não só do corpo, mas também da cabeça, era chegada a minha hora de ir para o tão esperado Vulcão Osorno, no Chile. Determinei, junto ao meu treinador, que 42 km seriam ideais para o momento e deixei que a altitude e desnível acumulado fossem meus desafios. Período difícil estava atravessando, profissional e pessoal, mas nada me tirava a vontade de estar perto do que mais me motiva na vida: a intensidade que estes momentos nos coloca. Como se a alma ficasse exposta, sem as nossas máscaras do cotidiano e nos tornamos, realmente, carne e osso com toda fragilidade que nos compete.

Diferente das outras vezes, resolvi montar toda viagem com ajuda da Freeway Sports. Desde a escolha de datas, voos e onde ficar até o diferencial da empresa que é a assessoria técnica para a corrida proposta. Uma parceria do ultramaratonista de montanha, Leonardo de Freitas, com a Freeway o qual, gentilmente, me orientou na reta final com mapas e estratégias para que eu completasse a prova com mais segurança. Foi, sem dúvida, muito importante. 

A viagem até Puerto Varas, cidade sede, é longa. Voo saindo de Belo Horizonte com conexões em São Paulo, Santiago no Chile e Puerto Montt, posteriormente, traslado até Puerto Varas. Para mim, foram 24 horas no ar devido a alguns problemas, mas, em média, se gasta 12 horas de viagem.

Cidade linda é Puerto Varas. Com 50 mil habitantes apenas, tem influência alemã na sua criação. Repleta de cafés vendendo tortas e alfajores de encher os olhos de qualquer um. O Hotel onde fiquei, Bella Vista, está localizado em frente ao Lago Llanquihue (lago profundo).

De uma beleza deslumbrante e ao fundo o nosso Vulcão Osorno e o Calbulco. Este último, entrou em erupção no mês de abril deste ano deixando a região sob cinzas e muita areia vulcânica. Passei meu dia olhando a paisagem e interagindo-me de tal forma que não seria surpresa enfrentá-la no dia seguinte. 

No final da tarde desse primeiro dia, participei do congresso técnico onde foi detalhado todo trecho das provas de 100 km, 73 km, 42km, 21km, 13 km e kids. Foi avisado de forma incisiva que o calor seria nosso segundo desafio porque o primeiro estava claro: muitas subidas em areia vulcânica fofa! Teríamos postos de abastecimentos (PAS) em vários pontos. No meu caso, 4 para os 42km. Saí do congresso com uma ansiedade enorme e resolvi comer algo com o grupo da minha assessoria, TRB, para distrair um pouco antes de arrumar os equipamentos para o dia seguinte. Sabia exatamente toda minha estratégia, repassei o mapa na minha cabeça e inclusive o ritmo que iria colocar em cada trecho, mesmo com sol. A dúvida era a areia… esta era novidade pra mim.

Minha largada estava marcada para as 9h da manhã seguinte. Cada grupo de atletas largou em tempos distintos: 100 km à meia noite e os atletas de 73 km às 4 horas da manhã. Pegamos um ônibus da organização até o Parque Nacional Vicente Pèrez Rosales às 7 horas, e durante o trajeto, a paisagem dos vulcões foi ficando cada vez mais nítida e imponente. Tinha tudo comigo: uma mochila já abastecida com 2 litros de água, 500 ml de hidroeletrolítico, géis, frutas secas, pastilhas de carbonato, kit de medicamentos, repositor de sal, e os equipamentos obrigatórios (manta térmica, apito, luvas, corta-vento) não me faltava nada, nem a coragem. 

O sol já estava alto e realmente quente. Fui tirando minhas roupas que estavam a mais antes da largada que foi às margens do Lago Todos Los Santos. Contagem regressiva e lá fomos nós! Um grupo tomou a frente em um ritmo maior, fiquei para trás a fim de me poupar. Logo começamos o ataque ao Vulcão Osorno. Maravilhoso!!! Um pouco mais de 6km de ascensão em areia fofa. Fui no ritmo que escolhi sem parar, nem um minuto. Caminhando, concentrada na força das minhas pernas que não falharam. Estávamos em linha, sem chance de acelerar ou diminuir o ritmo. Quando um atleta diminuía procurava a areia mais firme lateral, mas não parava.

Vi muitos atletas usando bastões para ajudar neste trecho. Optei, desde o princípio, não usá-los e acreditei que meus treinos foram focados nesta força para subir muito. Não me arrependi porque sabia que haveria descidas e trechos de mata. Sei que desenvolvo mais rapidamente com as minhas mãos em trilhas de cipós e pedras, então era poupar nas subidas com areia para acelerar nas matas.

Cheguei no ponto mais alto e aí resolvi parar por alguns minutos para comer, hidratar e tirar um pouco da areia já incomodando dentro do tênis. Desci o mais embalada que consegui em um verdadeiro córrego de areia que chegava na metade das pernas… era como correr em água, muito pesado .Após quatro horas, o primeiro PAS estava no km 15 e quando cheguei meu desapontamento. Não havia mais água e comida para reabastecimento. Somente um pouco de hidroeletrolítico de laranja para dividir com outros tantos atletas que chegaram comigo. Sol cada vez mais quente e somado ao calor da areia que mais parecia deserto. Enfrentei mais 6 km para chegar ao outro posto, já a beira do lago, na esperança de me reabastecer de verdade e enfrentar a segunda ascensão do Osorno. Assim aconteceu, entrei no PAS determinada a ficar apenas alguns minutos. Comi o que pude e abasteci com muita água; arrumei meus pés e fui embora sem pensar. Sabia que seria difícil pelo calor, mas não desconfiava do que me esperava. 

O trecho até o próximo posto era de aproximadamente 13 km. Neste momento, todos os pensamentos aconteceram: os motivos de estar lá; os aprendizados; a maturidade para enfrentar um local lindo, mas ao mesmo tempo muito desafiador da forma que nos propomos fazer: correndo ou caminhando forte para subir; nas pessoas que vão conosco de forma direta e indiretamente e a certeza absoluta que voltar para casa era tudo que mais queria para os braços dos meus filhotes. A vida passou como um filme com alegrias e tristezas que o compõe até que comecei a ser acompanhada por atletas de outras quilometragens e me distraí com eles no meio da mata. Estava no trecho mais confortável pra mim apesar dos inúmeros mosquitos (pareciam vespas) que perturbavam muito com suas picadas. Mas estava animada e me hidratando como podia.

Começamos a subir um trecho de areia e vendo o Osorno a nossa esquerda, quando então, percebi vários atletas sentados, outros deitados às margens deste caminho, muito desidratados. Avistei dois deles debaixo de um arbusto, imóveis, e um rapaz da organização. Identifiquei-me e perguntei se precisava de ajuda. Imediatamente, ele pediu que os examinassem e logo percebi que um deles, apesar de muito desidratado e com muitas náuseas estava consciente e conseguia obedecer ao que eu pedia. Hidratei-o com a minha água, cápsula de sal e medicação para enjoo. Enquanto isto, já olhava para a atleta que estava ao lado, imóvel! Tentei chamá-la e não respondia aos comandos, quando consegui acordá-la na força e oferecer um volume de água maior, além do sal. O risco maior é a perda de sal que sempre acontece no calor extremo e pode levar a morte mais rapidamente do que a falta de água, sem que o atleta perceba. Consegui, depois de medicá-la, melhorar seu nível de consciência e solicitei ao apoio que providenciasse a remoção dela dali. Não havia como, segundo o rapaz. Depois de uma hora e meia, e a melhora dos dois atletas, resolvi seguir minha prova, afinal não teria como eu sair dali de outra forma. Sem nenhuma água, segui mais 2km até o próximo PAS. Subindo e descendo dunas sem fim quando avistei o posto. Cheguei solicitando água…não havia nada!!! Nem uma gota. Havia acabado, com perspectiva de chegar o abastecimento somente dai a uma hora. Olhei para os lados e vi outros tantos atletas em estado de desidratação franca, repletos de câimbras. Um chileno que estava comigo na mata no trecho anterior da prova, guardou 300ml e foi com isto que desci os 9km até o próximo posto já à beira do lago.

Neste momento, percebi que minhas reservas tinham ido embora. Não me sentia bem, a água que tentava ingerir doía o estômago. Fui traçando a estratégia do que fazer quando chegasse no próximo posto: aliviar os pés, gastar um minuto a mais para tentar comer uma fruta e beber um pouco de água. O calor havia diminuído no final da tarde e consegui acreditar que a chegada estava cada vez mais próxima. 

E assim aconteceu, consegui me recompor para os 5km finais na beira do lago e com a noite chegando… uma emoção tomou conta de mim. Acabei a minha prova em 12h24 aliviada por ter feito o correto, e repleta de aprendizados para uma vida inteira.

O regresso aconteceu dois dias depois, sem dores, porém com os pés muito sofridos pelo desgaste da areia vulcânica.

Mas antes de ir, lógico, um refresco na minha alma e a melhor lembrança que pude guardar de tudo que aconteceu. O sabor do suco de framboesa à beira do lago LLanquihue, no Café Cassis. Inesquecível! Vívian Lemos

e-mail: consultorioplastica@hotmail.com

Treinos para corrida de montanha

Toda prova de montanha é diferente e exige capacidades diferentes, mas basicamente todas exigem um corredor versátil e bem treinado.

É preciso estar forte fisicamente, veloz e adaptado para as subidas. Intensificar os treinos de acordo com as características da prova escolhida, com planejamento.

Imagem: Shutterstock

Fui aceito nos 51km da Andes Infernal, que terá inclinação média de 15%, sempre acima dos 3mil sobre o nível do mar, altitude máxima de 5426 m.s.n.m. terreno seco, mas que me tomará mais de 10h pela limitação física que a altitude provoca.

Conto um pouco sobre minha estratégia de treinos para uma prova dessa estando longe da montanha. Veja a seguir:

Ladeira na esteira: normalmente fico 20min com inclinação média de 8% correndo com os batimentos perto do L2 (160 a 170bpm). Dá pra fazer depois da musculação.

Treinos longos: Velocidade confortável (L1) com objetivo de ficar longos períodos com movimentos repetitivos, 2, 3 ou 4 horas. Esse também me ensina a comer regularmente, acertar equipamentos na mochila e aumenta a força mental.

Musculação: Meta é ficar forte, fazer séries curtas de até 5 repet. com muito peso no agachamento, 70kg ou + (tenho 57kg). Agachar só até 90°, que é a melhor relação custo benefício para joelhos de corredores. Também alterno o treino de força com o de resistência de força, onde faço séries de 15 repet. com menos peso, claro, e outros exercícios, como afundo e stiff. (para quem não faz musculação, antes de chegar a treinar força é preciso começar com algumas semanas com o treino de resistência de força).

Descida: Perto de casa tem uma descida de uns 300m que levo 1′ para descer rápido. Esse é o treino específico de força e potência, carga bem mais leve que na musculação, (só meu corpo) e breves toques do pé no chão usando toda energia elástica do músculo. 5x dura uns 20min e pode complementar com treino de braços na musculação, ou 11x que dura 40min e me detona tanto que só faço de vez em quando, do contrário não conseguiria fazer bem feito os outros treinos da semana (antes de fazer treinos de potência, é preciso passar por várias semanas de resistência de força, depois outras várias de força e só então potência). Quem disse que era fácil?

Velocidade: Pode ser esteira ou rua, o objetivo é ficar perto do L2 (160 a 170bpm), mas diferente do treino de subida, que é lento, e pode vir depois da musculação, nesse quero ciclo de passadas rápidas e certo desconforto físico. Faço no plano, e só ele no dia.

Para essa prova quero estar forte para suportar com boa técnica as longas subidas e descidas. Acostumado a correr perto do L2 para que consiga compensar a perda de rendimento que o terreno e a altitude vão impor. Fazer alguns treinos longos esporadicamente.

Dependendo da prova, do histórico e rotina do corredor, uns treinos são mais relevantes que outros. Todos contribuem para o condicionamento geral e específico.

Ajustar todos esses possíveis treinos durante a semana, sem quebrar, é tarefa para treinadores experientes, pois qualquer um feito na hora errada acaba jogando contra você.

Enzo Amato