Andes Infernal 2016

Não é uma corrida convencional, mas se é aventura que você procura, bem vindo a Andes Infernal.

O valor da inscrição foi irrisório, no kit só o número, não teve medalha na chegada, não teve camiseta da prova, muito menos de finisher, não teve massagem no final, nem mesa de frutas, ou isotônico, mas teve toda a aventura do trajeto.

O organizador Marcelo Rojas de branco, René Castel, Karl Egloff, Jaime Hume, Nicolas Miranda e eu.
Foto: Solo Running

O organizador, Marcelo Rojas, tentou até o último momento fazer com que a prova fosse gratuita, só com a ajuda de voluntários e poucos patrocinadores, mas há poucos dias do evento foi obrigado a cobrar um valor mínimo de inscrição, o que na minha opinião não foi um incômodo, pois o valor cobrado foi bem menor que de outras provas, US$ 34 dólares na maior distância, com a possibilidade de chegar ao cume de uma montanha de 5400m, uma pechincha. E se notava a intenção dele de fazer dar certo, mas não foi dessa vez, e nem será ano que vem, pois em 2017 ele pretende entregar medalhas, oferecer mais comida no trajeto etc…

Todos apresentaram atestado médico na retirada de kit. Eu conheci pessoalmente Karl Egloff, favorito na prova e simplesmente o cara que subiu e desceu o Aconcágua e Kilimanjaro mais rápido que qualquer um até hoje (de azul na foto).

A previsão do tempo era perfeita para chegar ao cume do Cerro El Plomo, a 5400m. Na edição anterior não foi possível pelo mal tempo. O que é completamente normal em se tratando de alta montanha, e estávamos cientes dessa possibilidade. Antes da largada alguns atletas foram checados para ver se portavam todos os equipamentos obrigatórios.

A concentração foi em Valle Nevado, que fica mais ou menos a 1h30 de Santiago, a 3000 metros de altitude. 6 da manhã, ar rarefeito e uma forte subida deixou a todos ofegantes com menos de 1km de prova. Logo os corredores dos 28km seguem um caminho e os de 51km outro. Éramos apenas 43 nos 51km, ou querendo chegar aos 5400m.

As subidas são duríssimas e os bastões essenciais. Os tempos de corte cruéis, tinha 4h para chegar ao posto de controle no km 14 a 4200m (foto). Nessa barraca todos descansavam compulsoriamente por 5min. para que os médicos checassem a saturação de oxigênio 2x (um aparelho que abraça seu dedo marca quanto de oxigênio tem no sangue). 81 na entrada e 79 depois dos 5min. Um número acima de 75 me liberava para seguir, me sentia bem e fui.

14km a 4200m chegando na tenda para controle médico.
Foto: Patricio Valdés

Estava só com 40min de folga e comecei a prestar atenção no relógio. Chegar ao cume não seria apenas seguir adiante. Tinha que parar o mínimo possível, mesmo que o corpo pedisse descanso, e a essa altitude ele pede sem cerimônia. Já havia passado por corredores sentados descansando, já afetados pelos efeitos da altitude e esforço da corrida.

Começava a parte mais difícil da prova, o verdadeiro teste que queria experimentar, chegar aos 5400m. Qualquer 5min de subida fazia enxergar o ponto anterior muito mais abaixo, seguia um zigue zague interminável e já sem marcações da prova, era só subir e subir pela trilha marcada por outras pessoas que sobem todos os dias.

Mais um posto avançado de apoio com dois voluntários a 4600m, descansei alguns minutos enquanto um deles checava a coordenação de um dos corredores e lhe fazia algumas perguntas. Chegou minha vez, tudo em ordem, ele ainda me avisou que tinha apenas 1h30 para chegar a 5100 onde se cruza o glaciar. Quem não chegasse até o meio dia teria que dar meia volta.

Segui no ritmo que era possível, uma caminhada vigorosa, mas lenta que a cada dezena de passos me obrigava a parar para respirar ofegantemente. Parecia que eu terminava um tiro de 1km a cada 10 passos. Num momento me confundi e segui uma trilha que não levava a lugar algum, outro corredor me avisou enquanto me passava tranquilamente, no ritmo que a altitude permitia. Foram minutos preciosos que perdi tentando voltar a trilha, pois o terreno era íngreme, de pedras soltas e de difícil progressão.

Cheguei ao glaciar e escutei o voluntário dizer – depois desse ninguém sobe, fecharemos a passagem. – Fui o último a ter permissão para seguir, há apenas 2min antes do meio dia. Comemorei como se fosse uma vitória. Agora tinha a certeza que chegaria ao cume. Calcei os crampons, (espécie de corrente com cravos que firmam os tênis na neve) emprestado pela organização, e cruzei os 100 ou 200m do glaciar, uma queda me faria descer a mil por hora por mais de mil metros montanha abaixo, não sei se sobraria algo para contar história… mais trilhas e a altitude se fazia sentir forte agora, sentia uma leve tontura e precisava fazer paradas muito frequentes para respirar. Sorte que o clima ajudou e não estava tão frio quanto se espera a mais de 5mil metros, mesmo assim calcei a luva que achei no chão por cima das minhas que eram muito finas.

Alguns corredores descansavam e admiravam a paisagem de céu azul e montanhas nevadas dos Andes. Uma breve filmagem lá de cima, cumprimentos e um dos voluntários me diz – neste ponto temos metade da pressão atmosférica que há ao nível do mar – estava louco para comer o lanche de salame e queijo que carregava na mochila, mas o vento  era constante, e Leandro, um amigo do Brasil, que já estava no topo há mais tempo queria descer logo e fazer a parada com mais oxigênio.

Descer foi muito mais fácil, não precisava mais das paradas frequentes, só cuidar para não cair, mas escorregões eram normais nas pedras soltas.

Fiz o retorno do glaciar sem crampons, pois não haviam naquela hora, fui com mais cuidado ainda, cravando os pés onde os outros haviam passado e apoiando firme os bastões.

Já na dscida a 4600m com glaciar ao fundo. A foto não mostra a imensidão da massa de gelo.

Ao terminar nos sentamos por alguns minutos a 5100m para comer metade do lanche e apreciar o visual. Logo chegamos de volta aos 4600m e mesmo nessa altitude, a sensação era de poder respirar bem melhor. Terminamos o que havia sobrado do lanche e continuamos a descida, nesse trecho bem perigosa. Era fácil pegar uma trilha qualquer que some aos poucos e te deixa em maus lençóis. Sem querer pegamos uma trilha diferente da que havíamos subido e a situação ficou tensa, vários corredores descendo uma trilha quase reta de pedras soltas montanha abaixo, escorregando e levantando, mas depois de um bom tempo assim, chegamos de volta a tenda médica a 4200, quando nos checaram 2x novamente. Uma leve euforia e sensação de alívio nos contagiou, talvez por ter regressado em segurança ou por pensar que era mais descida que subida o que nos faltava. Era km 23 e já haviam passado mais de 9hs de prova, impressionante, mas essa é das corridas que quilômetros não são parâmetros, são apenas um número.

Estávamos errados, ao sair da tenda várias montanhas ainda nos esperavam, mas desta vez com bons trechos de corrida. Passamos por outros pontos de turismo, como o Cerro Pintor, que tem esse nome por suas várias cores. Até regressar a Valle Nevado completando 36km.

Pseudo chegada, querendo mais 15km. Leandro e eu.

Para a prova ser considerada a ultra mais alta do mundo, ela precisa ter mais de 42km, por isso nos faltava uma volta de 15km para concluir os 51km. Mas haviam passado 12hs desde a largada, esses 15km nos custaria mais umas 3h, éramos só Leandro e eu, e todos que trabalhavam eram voluntários. Por fim Marcelo nos convenceu de que tínhamos feito o mais difícil… e acatamos a decisão de encerrar por lá mesmo.

Os 15km finais massageariam o ego, mas tudo o que passamos bastou para só regressar com boas memórias.

Estávamos felizes por ter passado todos os obstáculos daquele percurso infernal, coincidindo com a mãe natureza nos brindando céu azul e permissão para subir El Plomo. 19 corredores chegaram ao cume e só 7 concluíram os 51km. Karl venceu com 7h58.

Assim foi uma corrida infernal nos Andes, chamada Andes Infernal.

Vídeo da prova em breve.

Para 2017 a Andes Infernal vai ter a distância de 36km como oficial e outras maiores para continuar sendo a ultra mais alta do mundo. A distância de 15km, chega a 3700m e pode ser experimentada por iniciantes que querem saber como é correr em altitude. Os 28km chega a 4200m e é necessário ter certa experiência, pois além de poder passar facilmente de 6h, o terreno começa a complicar. A partir dos 36km é necessário muita experiência. O risco de morte é real pelo terreno e o frio que pode fazer. Ter os equipamentos corretos significa muito nessa corrida. Voltaria nos 36km sem dúvida.

O que usei:

  • Tênis: Asics Fuji Attack 4 (era o terreno perfeito para destruir qualquer tênis, mas ele permaneceu intacto).
  • Relógio: Tomtom runner cardio (sabia que não duraria a prova toda, mas estava testando) Meu Polar V800 está na assistência técnica por defeito de fabricação, mas ainda bem que arrependimento não mata.
  • Bastões de trekking: Doite. Preferia ter um com trava ao invés de rosca, pela rapidez no desmonte, mas usei quase em tempo integral.
  • Mochila: Raidlight 5L. Se a previsão fosse de frio, uma de 8 ou 10L seria ideal.
  • Óculos de sol: Briko.
  • Câmera: GoPro Hero 3
  • Segunda pele: Ansilta e Columbia.
  • Corta vento: Montagne.
  • Calça: Adidas running.

Enzo Amato

4 ideias sobre “Andes Infernal 2016

  1. Pingback: Andes Infernal 2016 (en español) | Blog do Amato

      • Grande Enzo,

        Espetacular essa prova. É contagiante ler o seu relato sobre ela, nos dá mais vontade de treinar. Parabéns por mais um feito em sua vida e obrigado por nos dar o máximo de informações para as ultras. Fiz a minha primeira em Torres del Paine ( 60 km ) em setembro de 2015 e por alguns minutos corremos lado a lado, mas quando cheguei ao KM 35 tive fortíssimas cãibras que nunca havia sentido em toda a minha vida, mas fui até o fim e parte dessa chegada eu devo a vc, pois os seus relatos me ajudaram a diminuir a tensão que sabia que iria sofrer. Espero logo poder assistir o seu vídeo dos Andes Infernal e quem sabe um ano eu faça ela tb. Um grande abraço. Namastê meu camarada.

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