Programa Fôlego e eu.

Tive o grande prazer de conhecer Gustavo Maia numa corrida no sul do Chile. Dividimos o quarto e passamos vários dias com a turma de convidados trocando muitas ideias. Em poucos dias tive muito boas impressões sobre o Gustavo, apesar dele ser corintiano.

Ao voltar pra casa lhe escrevi propondo para fazer parte do Programa Fôlego. Confesso que ao escrever não consegui propôr nenhuma ideia que pudesse melhorar o programa, já me parecia tudo muito bem feito. Queria apenas conversar, sabia que as ideias surgiriam e que ele toparia esse bate papo. Os poucos dias que passamos no evento me indicaram essa característica de abrir portas que ele tem. 

Pois bem, a conversa foi muito produtiva e a partir de hoje passo a fazer parte dos colaboradores do programa Fôlego. Terei uma coluna no programafolego.com.br/ com vídeos sobre treinos, as provas etc…

O Blog do Amato continua no MidiaSport, que também terá um link para os vídeos do fôlego.

Fique ligado, meu vídeo da Ultra Fiord sai do forno semana que vem!

Enzo Amato

Maratona Asics Golden Run SP.

A Asics Golden Run será a melhor maneira de conhecer a selva de pedra. E perceber que não só de pedra ela é.

Esse percurso me fez ter orgulho da cidade onde nasci, de convidar os amigos de fora não com o pretexto ou argumento de que o clima é ameno, que tem poucas subidas ou curvas… Não, vai ter tudo isso, mas principalmente vai mostrar o que tem de bom, de ruim, e toda a diversidade de uma cidade cosmopolita.

Passará por cartões postais no centro antigo como a praça da Sé, pátio do colégio, teatro municipal, viaduto do chá, praça da república etc… contrastando a riqueza e beleza de outrora com a pobreza e vadiagem de hoje. Vias arborizadas com casarões enormes, bairros ricos, a subida da Brigadeiro, os arredores do Ibirapuera, prédios suntuosos de escritório, o fétido rio Pinheiros, a USP, o museu do futebol ao lado da largada no estádio do Pacaembu… enfim, vários lugares que levaria um amigo de fora de SP para conhecer.

Durante a corrida tem a diversidade da paisagem. Depois da prova sugiro um passeio pela Av. Paulista e Rua Augusta, para ver a diversidade da gente, das tribos. Para o jantar escolha a cozinha típica de qualquer nacionalidade ou região do país, ou um boteco com cervejas artesanais e comemore com a medalha no peito.

Esqueça a altimetria, anos atrás a Revista Contra Relógio publicou uma matéria que comparava os resultados de corredores que fizeram várias maratonas aqui no Brasil com diferentes altimetrias e seus tempos eram quase sempre os mesmos.

Treine seu ritmo de prova no plano, faça os longos com subidas e descidas para adaptar seu corpo, musculação para suportar as descidas e ir mais longe, e talvez, quebrar só no finalzinho, dia 31/7/2016.

A selva de pedra não vai tolerar uma preparação meia boca, serão muitas curvas com quebras de ritmo que te tirarão do piloto automático. Prepare-se com treinos bem direcionados para sofrer menos e aproveitar mais. Os bem treinados terão o prazer de descobrir São Paulo correndo.

Só faltou almoçar no mercado municipal, fazer um happy hour na Vila Madalena, um curso de café, comer pizza… são bons motivos para voltar.

Enzo Amato

Ultra Fiord 2016, a brasileira que ficou.

(click para leer en español)

A corredora brasileira que, sabiamente, abandonou a Ultra Fiord na parte mais difícil do percurso conta como foi ficar 3 dias na montanha.

Por Eliane Carvalho

Deixo aqui meu relato como amadora de Ultra maratonas. Já tive experiências na Patagônia, San Martin de Los Andes, El Cruce, Espanha, mas a Ultra Fiord, na Patagônia chilena foi o maior desafio da minha vida. Lugar com paisagens de uma beleza exuberante e ao mesmo tempo com o clima imprevisível, as vezes fatal. Moro em um país tropical, com temperatura média de 30°C e que ultrapassam 40°C positivo.

Tudo começou quando escorreguei no rio e molhei meus pés e mãos. O tênis, meias e as luvas ficaram encharcadas. Independentemente da cor, marca do tênis e roupas…

Não sou uma corredora profissional e veloz, apenas gosto de correr e tenho resistência. Mas nesse caso eu apenas escutei meu corpo. Meus dedos congelaram, ficaram rígidos e inchados, causando uma dor insuportável, não conseguia mais mexer os dedos e com isso não comia e nem bebia, ficando sem energia. Corria quando possível e caminhava no meio da nevasca. Um casal parou e colocou luvas plásticas nas minhas mãos, mas não resolveu. Pedi a um corredor para pegar a manta de sobrevivência na minha mochila e enrolar minhas mãos, e continuei andando. Não conseguia mais raciocinar, tendo dificuldade de visualizar a marcação. Caí várias vezes, fiquei toda lesionada. Até que um corredor pegou pelo meu braço e foi me puxando até o staff em Chacabuco.

Chegando lá, o paramédico Luis Augusto me atendeu rapidamente, me fez segurar uma caneca quente com café para beber e aquecer as mãos, e me colocou em um saco para me aquecer, mas estava com muito frio, e não tinha condições de continuar com os equipamentos necessários molhados. Troquei a meia, mas o tênis estava congelado, tendo em vista o aumento da nevasca.

Logo em seguida chegou a Argentina Micaela. Então o melhor seria esperar até que a nevasca diminuísse para continuarmos. No dia seguinte a nevasca estava mais forte, com 1m de neve, e tivemos que dividir a barraca e comida entre 7 pessoas. Teve momentos que pensei que seríamos soterrados por uma avalanche, pois o vento devia estar a 80 ou 100km/h e a barraca balançava muito, ficávamos segurando a barraca e batendo para tirar a neve. 

No final do sábado, dia 16-04, dois socorristas Guillermo e Julian, resolveram descer para pedir ajuda, pois o rádio não estava funcionando. Ficamos em 5 na barraca, Micaela, Pablito, Carlos, Luis Augusto e eu. Passou um filme na minha cabeça, pensava na minha filha, família, amigos, tudo que gosto de fazer e no que já tinha vivido. Praticamente 3 dias e 3 noites presa em uma barraca com 7 e 5 pessoas, deitada ou sentada, dormindo em sacos de dormir, sem banho, sem escovar os dentes, sem tirar as lentes de contato e saindo da barraca 1 vez por dia, somente para fazer as necessidades fisiológicas. Sem saber se ia conseguir sair da montanha.

O que me deixou mais confortável foi a calma dos 3 socorristas, isso foi fundamental. O poder da mente.

Para passar o tempo eles tentavam nos distrair conversando e cantando. Para mantermos a energia e calor, eles faziam mate, café, mingau, sopa, arroz e macarrão, em uma boca de gás, tudo na mesma panela. Dividíamos a mesma caneca e tinha alguns pratos, que limpávamos com papel higiênico.

No domingo a nevasca continuava forte e o resgate não chegou. Como a comida já estava acabando, eles resolveram emprestar roupas para Micaela e eu. Amarramos sacos nos pés para não entrar neve e congelar.

Saímos da barraca na segunda, dia 18-04 as 09:30h, a nevasca tinha diminuído. Carlos foi na frente procurando a marcação e abrindo caminho, Luis foi segurando Micaela, e Pablito me segurando, pois a neve estava muito alta, afundávamos e caíamos muito.

Quando passou a parte da neve e conseguimos andar sozinhas, me senti mais segura e confiante que chegaríamos bem.

Depois de umas 6 horas andando, conseguimos descer as montanhas, paramos em uma fazenda onde fomos muito bem recebidos, nos aquecemos na lareira e tomamos mate.

A polícia chegou na fazenda e foi muito atenciosa, nos deixando no hotel, salvas. Uma experiência que vou levar para o resto da vida e devo a Micaela por estar comigo e pela competência dos socorristas. Muito obrigada de coração, pelo cuidado e paciência. 

Chacabuco. Sim, faria tudo novamente. Infelizmente não consegui completar a corrida, que era meu objetivo, mas quem sabe em uma nova oportunidade. Amo correr, me sinto livre. Liberdade não tem preço. 

Eliane Carvalho