O que levar na mochila numa corrida de montanha

Os itens que se leva para uma corrida variam muito de acordo com a distância, tempo que se imagina que vai durar a prova, terreno, temperatura, drop bags no caminho, se é de auto suficiência ou não etc…

Por isso é muito importante que se leia atentamente o site da prova e seus itens obrigatórios, pois cada prova tem suas particularidades.

No caso da Ultra Fiord de 70km em 2017, (com previsão de tempo bom) levei o seguinte:

Vídeo da prova a partir de 1º de maio no Programa Fôlego.

Enzo Amato

Ultra Fiord 2017, lama e céu azul.

3ª edição, minha 3ª participação e 3ª vez com paisagens diferentes.

A Ultra Fiord nunca é igual, talvez pela localização geográfica e seus microclimas, talvez por colocar à prova seu corpo e mente, talvez pelo percurso lindo, mas que cobra seu preço e não permite descuido… enfim uma Ultra Fiord nunca é igual a outra a não ser pelo fato de ser sempre inóspita e selvagem.

Esse ano esteve muito mais segura, os staffs em todo trecho de montanha eram especialistas e estavam sob as orientações de Jordi Tosas (dá um google para saber mais sobre ele) o próprio organizador, Stjepan Pavicic, estava na região de montanha para certificar-se de que tudo estava bem, além disso eles tinham comunicação eficiente entre os pontos de controle e um helicóptero para resgate. Mas atenção, a Ultra Fiord sempre foi e sempre será uma prova arriscada e todo o processo de inscrição te deixa ciente disso.

Escolhi os 70km por considerar o melhor percurso para fazer imagens esse ano, já que ano passado filmei o trecho dos 50km. Ambas são desafiadoras e se algum parente quisesse assistir minha prova teria que ser a largada ou a chegada, não há acesso a nenhum outro ponto.

A largada, com o dia amanhecendo, foi desde o Hotel Rio Serrano com vista para a oitava maravilha do mundo, as Torres del Paine. Enquanto aquecia o corpo correndo por um campo aberto, névoa e geada ficavam para trás e adiante o sol nascia com céu azul. A vista alcançava todas as montanhas nevadas ao redor. As árvores, a terra e a água entregavam o cenário perfeito para lindas imagens. A ansiedade do pré prova passa totalmente e o silêncio dos primeiros quilômetros é tranquilizador. Meu único mantra a partir desse ponto era “chegar são e salvo”.

Subida depois de Balmaceda para chegar ao Glaciar mais adiante. Ruídos parecidos a trovões eram avalanches descendo do glaciar ao fundo.

Segui minha jornada, seco até o km 18, a partir daí muita lama e pés gelados. No km 30 parei no ponto de apoio onde tinha minha sacola com meias limpas, mais roupas e os bastões, para subir, subir e subir, a vegetação vai mudando, as pedras passam a tomar conta do percurso e depois dividem espaço com a neve para finalmente sentar-me numa pedra para colocar os crampons e passar pelo glaciar. Cerca de 2km de puro gelo que escondiam gretas vivas e perigosas. A pouca neve do inverno anterior fez com que mais gretas ficassem visíveis e uma fina camada escondesse outras que eram o real perigo para os corredores. Nesses pontos, ter pessoas gabaritadas como staff nos orientando, fez toda diferença.

A vista lá do alto era indescritível, parecia que estava numa foto publicitária dentro de uma revista de turismo.

As montanhas nevadas saiam da água, o sol descia atrás das montanhas mais altas e o céu com poucas nuvens mostravam as cores do fim de tarde da patagônia chilena. Sim, eu estava numa foto, que ficará para sempre na minha memória.

Desci o glaciar e a noite foi chegando aos poucos, só podia agradecer pelo dia que havia passado, mas continuar com meu mantra de chegar inteiro. 25km a noite por um bosque lamacento era o preço alto que ainda tinha que pagar para poder ter passado pelo glaciar. Correr a noite não me motiva, não posso filmar nem apreciar a paisagem, é um desafio diferente que passa a exigir mais da mente já que além de tudo, o corpo já está cansado.

Passei por 3 pontos de controle, enquanto eu tomava uma sopa e comia uns biscoitos, eles assinavam e marcavam a hora no meu passaporte de corredor para depois avisar por rádio uma central lá em Puerto Natales. A madrugada estava fria e o silêncio já não era tranquilizador. A jaqueta mais pesada, que a princípio parecia um exagero levá-la como item obrigatório, vestia o corpo da maioria dos corredores.

Além do percurso travado, minha prova foi lenta porque me sentia confortável em caminhar a noite, não tinha pressa e meu mantra me acompanhou até o fim. Cheguei as 3:30 da manhã exatamente 19h depois de largar. Tenho muito respeito e cuidado com essa prova, por isso considero qualquer pessoa que a conclua, um vencedor.

Em poucas palavras a edição de 2015 foi marcada por muita lama e chuva, 2016 pelo clima frio e vento, 2017 pelo céu azul sem vento. Que novidade trará 2018?

O que usei:

  • Tênis: Asics Fuji Attack 4
  • Mochila: Camelbak Ultra Pro
  • Câmera: Sony AS200
  • Calça legging: Asics
  • Camiseta térmica Nike
  • Manguito: Btwin
  • Primeira pele: Columbia
  • Corta vento: Montagne
  • Meias: Salomon até km30 e Quechua até os 70, ambas de poliamida.
  • Relógio: Polar V800 (bateria em modo normal não durou a prova toda)

Vídeo dessa cobertura a partir de 1º de maio no canal do Programa Fôlego no YouTube.

Enzo Amato.