Check list Ultra Fiord

Em 2015 fiz a edição inaugural da Ultra Fiord e corri minha maior distância até então, 114km.

Tinha apenas o site da prova para me basear e programar o que levar desde a largada e o que deixar nos 2 drop bags (sacolas nos pontos de abastecimento) que tinha no caminho de uma prova que duraria mais de 20hs.

Por isso fiz uma lista tentando imaginar o que seria importante em cada ponto. Uma da largada, outra da sacola que ficaria no km 29 e outra no km 70. Fora a lista que faço semanas antes da viagem com todos os itens para que na hora de fazer a mala a tarefa seja algo rápido, sem estresse ou medo de ter esquecido algo.

Lista da roupa de prova, desde a largada.

  1. Tênis;
  2. 3 pares de meias (um para cada sacola);
  3. Calça legging;
  4. Camiseta térmica;
  5. Manguito;
  6. 2ª pele manga longa;
  7. Fleece de reserva;
  8. Corta vento;
  9. 2 bandanas, uma pescoço outra cabeça;
  10. Luvas;
  11. Óculos de sol;
  12. Balaclava;
  13. Kit 1º socorros;
  14. Relógio + cinta frequencímetro;
  15. Mochila;
  16. Saco estanque;
  17. 2 caramanholas;
  18. Câmera filmar;
  19. Celular carregado;
  20. 2 lanternas + pilhas reservas.

Lista de comidas: (Especifique o que vai com você desde a largada, o que fica nas sacolas e o que te espera na chegada)

  1. Bisnaguinha;
  2. Chocolate;
  3. Club Social;
  4. Água de côco;
  5. Bananinha;
  6. Goiabada (para as bisnaguinhas);
  7. Polenguinho (para as bisnaguinhas);
  8. Pão de mel;
  9. Suco em pó.
  10. Tudo acima pode entrar no Chile, fechado e em suas embalagens originais. Abaixo o que deixei para comprar já estando no Chile por ser proibido entrar no país:
  11. Amêndoas;
  12. Damasco seco;
  13. Pão com queijo e salame (o Gustavo era meu colega de quarto em 2016 e tinha uns 10 lanches. Me deu um. Tudo deve ser comprado lá.

Sacola do Km 29, Balmaceda: (anote também o que pretende deixar, por exemplo, as meias sujas)

  1. Bastões de trekking (para a subida do glaciar);
  2. Protetor solar;
  3. Lanterna c/ pilhas novas + as reservas;
  4. Cada comida escolhida e suas respectivas quantidades;
  5. Crampones (obrigatório em 2017, para quem cruza o glaciar);
  6. Par de meias limpas.

Sacola do km 70, Estância Perales:

  1. Outra lanterna com pilhas novas;
  2. Jaqueta reserva;
  3. As comidas e suas quantidades;
  4. Meias limpas;
  5. Outro par de tênis (teria sido muito bom, mas em 2015 não levei outro).

Sacola da chegada: Em 2015 minha distância terminava em Puerto Natales que era perto do meu hotel. Em 2017 termino na Estância Perales que fica a horas de voltar para o hotel, por isso é importante uma muda de roupas bem quentes e algo para comer enquanto espera o transporte de retorno.

  1. Muda completa de roupas de frio, provavelmente as mesmas que usava antes da largada e mais um pouco;
  2. Outro tênis;
  3. Alguma/s comida/s para suportar um certo tempo.

Obviamente tudo varia de prova para prova, da temperatura, dos horários previstos para pegar cada sacola, do terreno que vai encontrar entre elas etc…

O importante é que você faça sua lista com antecedência para evitar esquecer de algo e reduzir bastante o estresse pré viagem.

Fique ligado em mais vídeos sobre Ultra Fiord e outras provas iradas no Programa Fôlego.

Enzo Amato.

Álbum Ultra Fiord

Juntar fotos de profissionais acabou resultando numa linda recordação da Ultra Fiord. Vou guardar com muito carinho e agradecer quem teve a brilhante ideia.

Foi a experiência mais difícil e selvagem pela qual já passei e as imagens conseguem contar tudo isso.

Apareço nas páginas 187, 189 e 226.

Quedó claro que no es un evento para todos. Ultra Fiord es una experiencia dura y salvaje, diseñada especialmente para aquellos que buscan grandes desafíos, para los que disfrutan explorando sus límites personales, para los que tienen espíritu de aventura y para los que se apasionan con la naturaleza salvaje… Para esos minimalistas capaces de enfrentar todas las adversidades que puede imponernos la naturaleza… Stjepan Pavicic (diretor da prova).

Enzo Amato

Ultra Fiord, vídeo e dicas para enfrentá-la.

Foi a prova mais insana que já fiz, por isso fiz questão de saber a opinião de corredores mais experientes, e eles também consideraram a Ultra Fiord bem difícil. Assim sendo todo cuidado é pouco, e necessário.

Se eu tivesse que resumir em um palavra seria, garanta-se! A primeira edição pegou muita gente desprevenida sobre a real dificuldade do percurso, e deixou mais de 40% dos inscritos nas 3 maiores distâncias sem medalha de finisher.

Tenha comida extra, roupa extra, meias, pilhas para lanterna, outro tênis e um kit de primeiros socorros. Assim você “só” precisará se preocupar em cumprir a distância sem passar apuro por causa do equipamento.

Junto com o vídeo aproveito para deixar algumas orientações para quem pretende ir ano que vem.

  • Escolha uma distância que já tenha feito, essa não é a prova para experimentar distância nova.
  • Leve outro tênis para trocar num dos pontos de apoio, os últimos 44km antes de Puerto Natales são por estrada de terra e é melhor estar com tênis e meias limpas e confortáveis.
  • Deixe um par de meias reserva em cada drop bag. Acredite, isso não é perda de tempo, nem frescura. A prova destrói seus pés aos poucos.
  • Os pontos de apoio estão longe uns dos outros, por isso tenha comida extra e um bom kit de primeiros socorros na mochila.
  • Pilhas reserva, mais de uma troca e outra lanterna com mais pilhas no drop bag. São 13 horas de escuro por dia. Lembre, garanta-se!
  • Bastões de trekking para o trecho de montanha, um ou dois.

A parte da neve foi espetacular e não foi preciso nenhum outro equipamento específico. É mais escorregadia que o barro, só isso.

Assista aos vídeos, leia atentamente o site da prova e outras crônicas para poder se preparar e separar os equipamentos corretos. Mais detalhes na minha crônica.

É uma longa jornada no mágico mundo dos fiordes.

Enzo Amato

Ultra Fiord 2015, mis largos 114km.

En plena noche oscura y profunda de luna menguante, solo en un bosque viendo nada más que el brillo de la luz de la linterna, con 16 horas de corrida en las piernas, hacía poco que había pasado por la mitad del recorrido y estaba en mi peor momento mental, descubrí que estuve dando vueltas por un tiempo y me parecía que eso me estaba pasando de nuevo, sin encontrar otro corredor ni el punto de apoyo siguiente la desesperación empezó a golpearme, la zapatilla estaba rajada y lo único que no quería era encontrar de nuevo el mismo punto que había pasado horas antes para que las ganas de abandonar no me ganaran por completo.

Nada de lo que hice hasta ahora se compara a la Ultra Fiord. Yo quería exigirme más, pasar de los 80 para los 100km, pero lejos eso se volvió el deafío deportivo más grande que ya enfrenté.

Amaneció el viernes y un poco menos de 50 corredores largamos, los primeros 5km fueron de pasto y tuve el gusto de acompañar a dos de las embajadoras de la corrida, las norteamericanas Britt Nic Dick y Krissy Moehl, quien ya venció en el Mont-Blanc, era un ritmo fuerte para mí, pero hasta que el barro no apareció pude estar atrás de ellas, rápidamente cruzamos un rio con agua hasta la cintura dictando lo que sería trivial en las próximas 28 horas, pies mojados.

El recorrido se puso lento y las dos continuaron, poca corrida y barro hasta las canillas, después de 3 horas me di cuenta que el frío podría complicarme, las manos estaban duras, sin fuerza y el cuerpo helado, como el comienzo fue más acelerado terminé sacándome el rompe viento, pero no me di cuenta que el frío me fue dominando de a poco, a tiempo de evitar una hipotermia me detuve para ponerme otro abrigo y el rompe viento y me sentí mejor.

Con más de 5 horas llegué al punto de control del km 29 al pié de la montaña, tomé sopa y disfruté algunos minutos mientras sacaba mi bolsa de comida para reabastecer la mochila ya que solo encontraría otro punto dentro de varias horas. Un glaciar monstruoso nos observaba de cerca y soltaba avalanchas con ruídos de truenos asustadores, paré en el lago para sacar una piedra que me molestaba más que todo el barro que cargaba hace horas.

Seguí firme montaña arriba sin sendero marcado, apenas siguiendo las marcas de la corrida, era una caminada lenta pero constante, pasé la neblina hasta poder ver el tamaño real de las montañas con hielo eterno que me rodeaban, esa vista hacía que el esfuerzo valiera la pena, sin tener que pensar mucho en la respuesta cuando me preguntan porqué corro, fueron más de 2 horas subiendo hasta llegar al glaciar, caminar en la nieve con zapatillas era muy resbaladizo y el bastón facilitó esta tarea, el esfuerzo parecía interminable, pero yo todavía lo disfrutaba, ya que era algo que nunca había hecho. Fueron 3 lentos kilometros más en la nieve con derecho a tratar de esquiar en la bajada, valía ir sentado también. 

Enzo y un lago azul hipnotizante

En la bajada encontré al segundo colocado de las 100 millas, mi tocayo Enzo Ferrari, seguimos juntos por un tiempo y cuando empezó a oscurecer él aceleró su paso y nos separamos. Pasé por el control del km 45 y encontré a la fuerte corredora argentina Sofi Cantilo que acababa de abandonar por lesión (llegaría al hotel 24hs después) corrí varias horas concentrado siguiendo las marcas, pero de repente veo dos linternas en la dirección contraria y me preguntan porqué estoy yendo en contra mano, me quedé atónito por algunos segundos tratando de entender como había estado yendo para el lado equivocado si estuve todo el tiempo siguiendo las marcas, 10 minutos después estabamos en el punto del km 58 eran 23.30 de la noche y descubro que Enzo había pasado por ahí una hora más temprano, esa noticia me desmoronó. Incluso más rápido no daría tiempo para que abriera una hora de diferencia y eso me hizo pensar por un buen rato en cuánto había estado esforzándome para ir hacia el lado equivocado. Pude volver mentalmente a la corrida por un tiempo, hasta corriendo más rápido que antes, pero de nuevo me vi solo en el sendero, crucé varias veces el mismo rio a veces subía otras bajaba, intenté estar atento a pequeños detalles como ese para estar seguro de que estaba yendo hacia el lado correcto, descubrí que mi zapatilla estaba rajada y la duda sobre el camino tomaba proporciones que escapaban de control, minutos parecían horas y pensaba en que haría si encontraba de nuevo el km 58 o si encontraba a Sofi en el 45. Incluso sabiendo que es normal perderse en corridas de montaña, en este momento, esto talvez sería determinante para que desistiera.

Finalmente veo a alguien que estaba yendo para el mismo lado que yo, menos mal, empiezo a seguirlo, lo único que quería en aquel momento era correr con alguien más, aunque tuviera que acelerar un poco el ritmo, era un venezolano que vive en Santiago llamado Alvaro, le pedí sin vergüenza que no me dejara para atrás porque mi mente no estaba jugando a mi favor, atrasando un poco su paso me esperó, los senderos llenos de barro nunca nos dejaron y a las 3 de la mañana llegamos al km 70 donde otra bolsa y otra cocina con comida me esperaba, comí un plato de pasta con carne, sopa, café y me quedé ahí una hora, había decidido que si me quedaba más tiempo ahí esperando correría menos de noche y más durante el dia iluminado, me faltaban 44km para completar los oficiales 114km de corrida, a partir de este punto era calle de tierra, le agradecí a Alvaro y me despedí diciéndole que me encontraría más adelante ya que yo continuaría lento, estaba cargado con comida, el próximo punto de control sería recién en el km 93. Cerca del km 72 la linterna apunta para 4 ojitos brillantes a un costado del camino, dos zorros, yo no sabía si atacaban humanos o no, seguí mi camino y uno de ellos también decidió seguirme, traté de espantarlo sin exito, corrí fuerte como si fuera el principio de la corrida y el zorro seguía atrás, me detuve y levanté los brazos, finalmente se fue y volví a correr como que ya había corrido 72km, bien lento. A esta altura podía correr despacio y caminar rápido, así seguí hasta que Alvaro me alcanzó de nuevo y en el puesto del km 93 nos separamos otra vez, él estaba más entero, me quedé unos 15 minutos en el puesto, tomé sopa, ya había amanecido y ya llebaba más de 24 horas de corrida.

Partí para los últimos 20km con dolores fuertes en los tobillos y sin capacidad de caminar rápido, por más que pensara en llegar rápido para avisar a la familia, no podía ir más rápido, eran líneas interminables de camino de tierra hasta alcanzar el asfalto que llebaba a Puerto Natales, esos últimos 6km, como un sprint final, pude volver a correr, la gente en los autos tocaba bocina y alentaban, eso ya era suficiente para emocionarme, no podía filmar y la voz me temblaba, el auto de la policía me escoltó el último km, me sentía como si fuera el primer colocado, la llegada fue tan emocionante como las últimas 28 horas, condensada de buenos y malos momentos, pero sin duda es algo que nunca voy a olvidar, pude completar no cualquier 114km, que ya era bastante, si no los 114km de la edición inaugural de la Ultra Fiord.

No era simplemente entrenar, llegar y correr, fue la coincidencia de cruzarme con las personas correctas durante el recorrido, de inspirarme en las que conocía, de superar el clima inospito, las adversidades y tener actitud. Solo 58% de los que largaron terminaron la corrida. Si sos adepto a mientras peor mejor, la Ultra Fiord va a quedar en tu corazón.

Enzo Amato

Ultra Fiord 2015, meus longos 114km.

Em plena noite escura e profunda de lua minguante, sozinho num bosque enxergando nada mais que o feixe de luz da lanterna, com 16 horas de corrida nas pernas. Havia passado há pouco pela metade do caminho e estava no meu pior momento mental. Descobri que estive dando voltas por algum tempo e achava que o mesmo poderia estar passando novamente, sem encontrar outro corredor nem o próximo ponto de apoio o desespero começou a bater. O tênis estava rasgado e o único que não queria era encontrar o mesmo ponto que já havia passado horas antes para que a vontade de desistir não me ganhasse por completo. (hacé click para leer en español)

Nada do que fiz até hoje pode se comparar a Ultra Fiord. Eu só queria aumentar a barra, passar dos 80 para os 100km, mas isso se tornou de longe, o maior desafio esportivo que já enfrentei.

A Sexta feira clareou e pouco menos de 50 corredores largamos, os primeiros 5km foram de pasto e tive o prazer de acompanhar duas das embaixadoras da prova, as norte americanas Britt Nic Dick e Krissy Moehl, que já venceu no Mont-Blanc, era um ritmo forte pra mim, mas enquanto a lama não chegou consegui ficar na cola delas e logo de cara cruzamos um rio com água acima da cintura ditando o que seria trivial pelas próximas 28 horas, pés molhados.

O percurso passou a ficar travado e as duas seguiram, pouca corrida e lama até a canela, depois de 3 horas percebi que o frio poderia me complicar, as mãos estavam duras, sem força e o corpo gelado, como o início foi forte acabei tirando o corta vento, mas não percebi que o frio foi me dominando aos poucos, em tempo, antes de uma hipotermia, parei para vestir outra blusa e o corta vento e passei a me sentir bem melhor.

Com mais de 5 horas cheguei ao ponto de controle no km 29 ao pé da montanha, tomei sopa e desfrutei alguns minutos enquanto pegava minha sacola de comidas para reabastecer a mochila já que só encontraria outro ponto dali várias horas. Uma geleira monstruosa nos observava de perto e soltava avalanches com ruídos de trovões assustadores, parei no lago para tirar uma pedra que incomodava mais que toda lama que carregava há horas.

Subida dura até vencer a serração.

 Segui firme e forte montanha acima sem trilha marcada, apenas seguindo as marcações da prova. Era uma caminhada lenta, mas constante, passei a linha da neblina até poder ver o real tamanho das montanhas com gelo eterno que me rodeavam. Toda aquela vista fazia o esforço valer a pena, sem precisar pensar muito na resposta quando perguntam porque corro. Foram mais de 2 horas subindo até chegar ao glaciar. Caminhar na neve de tênis era bem escorregadio e o bastão facilitou a tarefa, o esforço parecia interminável, mas eu ainda desfrutava, pois era algo que nunca tinha feito. Foram mais de 3 lentos quilômetros na neve com direito a tentar esquiar na descida, valia ir sentado também.

Meu xará Enzo e um lago azul hipnotizante

Na descida encontrei o segundo colocado das 100 milhas, meu xará Enzo Ferrari, seguimos juntos por algum tempo e quando começou a escurecer ele apertou o passo e nos separamos. Passei no controle do km 45 e encontrei a forte corredora argentina Sofi Cantilo que acabará de abandonar por lesão (chegaria no hotel 24hs depois) corri várias horas concentrado seguindo as marcações, mas de repente vejo duas lanternas na direção contrária e me perguntam porque estou indo na contra mão, fico atônito por alguns segundos tentando entender como estava indo pro lado errado se fiquei o tempo todo seguindo as marcas, 10 minutos depois estávamos no ponto do km 58 era 23:30 da noite e descubro que Enzo havia passado por lá uma hora mais cedo, essa notícia me desmontou. Mesmo mais rápido não daria tempo dele abrir uma hora e isso me fez pensar por um bom tempo quanto estava me esforçando para ir pro lado errado. Consegui voltar mentalmente pra prova por um tempo, correndo até melhor do que antes, mas novamente me vi sozinho na trilha. Cruzei várias vezes o mesmo rio e ora ele subia ora descia, tentei ficar esperto em pequenos detalhes como esse para ter certeza de que estava indo para o lado certo. Descobri que meu tênis estava rasgado e a dúvida no caminho tomava proporções que fugiam do meu controle, minutos pareciam horas e ficava pensando no que faria se encontrasse novamente o km 58 ou se encontrasse a Sofi no 45. Mesmo sabendo que é até normal se perder em provas de trilha isso talvez fosse determinante para minha desistência naquele momento.

Finalmente vejo alguém, e estava indo para o mesmo lado que eu, menos mal, passo a segui-lo, o único que queria naquele momento era correr com mais alguém, mesmo que tivesse que acelerar um pouco o ritmo, era um venezuelano que vive em Santiago chamado Alvaro, pedi a ele sem o menor pudor que não me deixasse pra trás porque minha mente não estava jogando a meu favor, ele mesmo retardando um pouco o passo me esperou, as trilhas lamacentas nunca nos deixaram, e as 3 da manhã chegamos ao km 70 onde outra sacola e outra cozinha com comida me esperava, comi um prato de macarrão com carne, sopa, café e fiquei lá por uma hora, havia decidido que se ficasse mais tempo lá parado correria menos a noite e mais com dia claro, me faltavam 44km para completar os oficiais 114km da prova, a partir dali era só estrada de terra, agradeci e me despedi do Alvaro dizendo que ele me encontraria logo adiante porque eu continuaria devagar. Estava carregado com comida, o próximo ponto de controle seria só no km 93, mas ainda por volta do 72, a lanterna aponta para 4 olhinhos brilhantes ao lado da estrada. Duas raposas, até aquele ponto não sabia se elas atacavam humanos ou não, segui meu caminho, mas uma delas resolveu me seguir, tentei espantá-la sem sucesso, passei a correr forte como no início da prova e ela veio atrás, de repente parei e levantei os braços, relutante ela finalmente se foi e eu voltei a correr como se já tivesse feito 72km, bem devagar. Nessa altura conseguia correr devagar e caminhar rápido, segui assim até o Alvaro me alcançar novamente, e no posto do km 93 nos separamos outra vez, ele estava mais inteiro, fiquei uns 15 minutos na barraca, tomei sopa, já havia amanhecido e eu tinha completado mais de 24 horas de prova.

Parti para os últimos 20km já com fortes dores nos tornozelos e sem a capacidade de caminhar rápido, e por mais que pensasse em chegar logo para avisar a família, não conseguia ir mais rápido.Eram retas intermináveis de estrada de terra até alcançar o asfalto que levava a Puerto Natales, esses últimos 6km, como num sprint final, consegui voltar a correr, as pessoas nos carros buzinavam e acenavam. Só isso era suficiente para me emocionar, não conseguia filmar, a voz estava embargada, o carro da polícia me escoltou o último km, me sentia o primeiro colocado, a chegada foi tão emocionante quanto as últimas 28 horas, condensada de bons e maus momentos, mas sem dúvida, é algo que nunca vou esquecer, consegui completar não qualquer 114km, que já seria muito, mas os 114km da edição inaugural da Ultra Fiord. 

Não era só treinar, chegar lá e correr, passou pela coincidência de cruzar as pessoas certas no percurso de me inspirar com as que conheci antes, de superar o clima inóspito, as adversidades e ter atitude. Só 58% dos que largaram concluíram a prova. Se você é adepto do quanto pior melhor a Ultra Fiord vai ficar no seu coração.

Enzo Amato

1 semana para meus 100km, fase final de preparação.

4 meses passaram voando.

Nas últimas semanas os treinos mudam de cara, deixam de ser majoritariamente físicos e passam a ser mais mentais do que antes. O corpo vai ganhando intervalos maiores entre treinos que são cada vez mais reduzidos. Continuo fazendo com intensidade para manter a confiança de que estou bem fisicamente, pois a cabeça começa a te colocar em dúvida com tantos descansos, mas basta recordar de tudo o que foi feito até agora e dar uma acelerada que a autoconfiança tem que superar a dúvida e a ansiedade.

Nas últimas semanas é hora de separar os equipamentos, comprar as comidas, devorar o site da prova para armar sua estratégia, para ser dono dela e ir com vontade, saber o que colocar nas sacolas que estarão no caminho, com que roupa começar e qual usar na montanha. Tudo isso completa sua agenda que ficou meio vazia com a falta de treinos de antes.

Os descansos dão tempo para o corpo se recuperar totalmente dos treinos, que na fase final podem mais atrapalhar do que ajudar. Não adianta estar bem na largada, precisa continuar bem lá na frente também e largar com menos de 100% é burrice. Meu último treino longo de 4 horas foi há 4 semanas antes da prova, a musculação foi reduzida para 2 séries ao invés de 3, faltando 2 semanas fiz pouco menos de 2 horas e os treinos da semana não passaram de 7km. É tudo muito individual, mas o objetivo é não estar cansado até o meio da prova, coisa que o excesso de treino na fase final pode causar.

Amanhã embarco para o sul do Chile para correr a Ultra Fiord, o desafio físico e mental mais difícil que me propus a fazer até hoje e não vejo a hora de poder dividir essa experiência com todos.

Até a volta!

Enzo Amato

Ultra Fiord, dicas do organizador.

Assisti a toda entrevista que o organizador da Ultra Fiord, Stjepan Pavicic deu ao site trailchile.cl e anotei as partes que considerei mais importantes e interessantes sobre a corrida e a Patagônia chilena na época da prova.

Já fui ao sul do Chile 2x uma para correr a Patagonian International Marathon em 2013 e em 2014 na Ultra Trail Torres del Paine, sempre no fim de setembro quando vem chegando a primavera, mas ainda com a cara do inverno. Desta vez a primeira edição da Ultra Fiord nos brindará com as cores do outono nos bosques que será algo totalmente diferente do que vi das outras vezes, árvores com tons amarelo e vermelho. Abril predominantemente é a época de céu mais aberto, menos vento que no verão e relativamente seco. Poderemos enfrentar temperaturas negativas ao amanhecer e nas partes altas do percurso, por isso uma boa estratégia de onde deixar as roupas pode ser determinante para continuar na prova.

Corredores dos 167km chegarão a Hosteria Balmaceda com 90km, por volta das 7 da manhã até aí sem grandes variações de altitude, mas é o ponto onde começa a grande montanha do percurso. Já os corredores dos 70km pegarão as partes mais duras do trajeto.

Stjepan disse que se você fizer uma estimativa de tempo com base na sua experiência, e observando a altimetria certamente vai demorar mais do que imagina. A altimetria não assusta, mas o terreno em certas partes é bem custoso.

O vídeo teve mais de 9mil visualizações nas primeiras 24hs de lançamento. A página da prova teve mais de 20mil curtidas no fb, vindas de mais de 40 países sendo os 10 principais, Chile, Argentina, Brasil, EUA, Equador, Espanha, Canadá, México, Reino Unido e Uruguai.

Serão cerca de 200 a 250 atletas nas 4 distâncias, ou seja, prova muito selvagem.

Nos 30km a altimetria não diz muita coisa, mas o terreno sim, e acredita que seria um bom desafio se o primeiro colocado tentasse fazer em menos de 3hs.

Boa parte do 1º vídeo (acima) é do percurso dos 30km, onde todos passarão.

Diferentemente de outras corridas, poderemos pegar e deixar os bastões nos postos de apoio. Normalmente ou você larga com ele ou não poderá usar.

Quem vai para os 100km e 70km pode ir com pouco equipamento durante os primeiros 30km por ainda ser baixo, a partir daí chega a montanha.

4 dicas importantes do Stjepan que fecharam a entrevista.

  1. Reavaliar a distância e se estiver na dúvida, que mude para uma menor. Para ter uma corrida mais segura possível.
  2. Escolher o equipamento, levar umas gramas a mais pode fazer muita diferença durante o percurso com relação a conforto e segurança.
  3. Revisar os vídeos e fotos para se dar conta do que encontrará pela frente para planejar alimentação, equipamentos etc…
  4. Ter uma estratégia de corrida, o que levar, em que bolso colocar, o que comer etc…
  • Fonte: www.trailchile.cl
  • http://www.trailchile.cl/el-late-del-trail-especial-de-ultra-fiord/

Falta só um mês para a largada e a ansiedade começa a aumentar. Clique e veja os vídeos e textos da prova.

Aguarde próximos textos interessantes sobre a Ultra Fiord.

Enzo Amato

7 semanas para meus 100km, vídeo do percurso.

Falta pouco.

Pelo vídeo percebe-se que a prova vai ser bem selvagem e com paisagens características da patagônia chilena, nos 30 e 70km florestas, montanhas, geleiras, fiordes, água, nos 100 e 160km até noite vira desafio.

No percurso de 100km serão 3700m de ascensão. E na preparação tenho que fazer todas as subidas possíveis, para a mente e o corpo não sentirem “medo” quando as pirambas aparecerem na frente.

Última semana para as inscrições e uma lista de super atletas do mundo todo serão os embaixadores da Ultra Fiord.

Minha nova rotina de pai reduziu alguns treinos na semana e procurei remediar fazendo o básico com o pouco tempo que tive, musculação num dia, um pouco de subida e descida em outro e mais um de 10km no L2. Semana que vem tem mais longão.

Enzo Amato

8 semanas para meus 100km.

Semana passada não teve texto porque quase não teve treino. Passei vários dias na maternidade babando na nova integrante da família que nasceu. Carnaval nunca foi tão emocionante!

Depois de 4 dias sem treinos, muito pouca atividade física e horas de sono reduzidas, voltei aos treinos meio baqueado, corri 2km e voltei pra casa exausto.

Quarta fui me recuperando e mandei 7km bem feitos.

Quinta fiz musculação, depois de uma semana sem, ainda levantava os mesmos pesos, isso não me preocupava.

Sexta não adiantava treinar, pois atrapalharia o desempenho do sábado, e ficar confiante com os treinos agora é mais importante do que simplesmente me esgotar.

Trilha entre Estrada velha de Santos e Paranapiacaba.

Sábado fui para trilha (foto acima) pensando em fazer 4hs num percurso de 37km, mas a volta foi mais sofrida e demorei 30 minutos a mais que o previsto, senti o calor e a desidratação, roupas encharcadas por muito tempo e vontade de virar copos e copos de uma vez só. O desempenho caiu bastante, mas tenho claro na cabeça que foi pelo calor, o corpo está preparado e a cabeça também, basta me lembrar de outros treinos tão intensos quanto este que foram bem executados para não me deixar abater.

Domingo descanso.

A semana começa cheia de novidades para um pai de primeira viagem, já quanto aos treinos tudo bem. Ainda acho que consigo incluir mais 2 treinos longos e assim totalizar 5 longos nessas 15 semanas de preparação. Número bom para me sentir confiante fisicamente e mentalmente, também para acertar a alimentação, hidratação e equipamentos.

Rumo aos 100km da Ultra Fiord.

Enzo Amato

Ultra Fiord

Percurso da Ultra Fiord 2015

Um Fiorde é uma espécie de lago profundo em forma de U entre montanhas rochosas e acantilados. Se formaram com o movimento dos glaciares rumo ao mar, é por isso que só se encontram em regiões muito frias. O sul da Patagônia chilena esta repleta de milhares de quilômetros de fiordes, até alguns que não foram descobertos ainda. Tudo isso faz com que a Ultra Fiord tenha um ambiente místico de descobrimento do espetacular mundos dos fiordes.

Faltando menos de um mês para o encerramento das inscrições (até 7/3/2015) grandes nomes do trail running mundial serão os embaixadores do evento, como os brasileiros Manu Vilaseca nos 70km e Fernando Nazário nos 100km, também argentinos, chilenos europeus e estadunidenses, mas além das estrelas, o evento já se consagra internacional na sua primeira edição, 70% dos inscritos são estrangeiros e 17 países estarão representados.

Através do evento seus organizadores buscam promover o turismo na região, contribuindo na valorização do patrimônio e fomentando o desenvolvimento sustentável das comunidades locais. “Queríamos desenvolver uma prova que não só permitisse descobrir esses misteriosos caminhos de água”, conta o diretor da prova, Stjepan Pavicic, “se não ir além disso no desenvolvimento sustentável e na conservação da região para assim proteger os fiordes chilenos e seus moradores, preservando beleza e inocência”

Viverei essa experiência ao lado de grandes estrelas e muitos corajosos desconhecidos que terão suas histórias particulares na Ultra Fiord.

Clique e acompanhe minha preparação completa como montagem de planilha, alimentação, treinos longos etc…

Enzo Amato